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Menino besta cheio de sonhos aprisonado no corpo de um homem sóbrio e cheio de desejos.

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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A Lei do Decibel.

-Cachorro! Safado! Sem vergonha!
Pulei da cama. Tinha certeza que não era comigo. Não tenho o perfil e minha mulher jamais me trataria assim mesmo que algo terrível tivesse acontecido na noite anterior. Cachorro ! Safado ! Sem vergonha ! A voz insistiu invadindo a penumbra do quarto e passei a me culpar por sonhos pecaminosos que talvez Morfeu me proporcionara e dos quais, infelizmente, eu não tinha a menor recordação. Cachorro ! Safado ! Sem vergonha ! Vinha lá de fora, corri e abri a porta da varanda. Vinha do além, do éter, do céu. Talvez Maria do alto das nuvens sem esperar o juízo final, tivesse perdido a paciência e resolvesse me julgar e condenar naquela manhã de Domingo. Não era ela. Recobrada a consciência percebi que era apenas um microfone, na mão de uma louca que reproduzia versos insensatos numa paródia de canto, o responsável pelo meu despertar. Mas a culpa não era do microfone, era mesmo da louca ligada anatomicamente à mão que o empunhava.
Num país de tantos crimes e leis alguém lá em Brasília deveria talvez, num surto de sensatez, criar uma legislação para o uso de microfones. Uma carteira de habilitação, quem sabe? O cidadão faria um curso, umas aulas práticas, uns testes básicos: Voz, domínio da língua, educação doméstica que fosse, cultura geral e quem sabe até, legislação ambiental que está na moda. Aí, e só aí, tirava carteira pra usar microfone.
Microfone é coisa perigosa, não dá pra botar a boca nele e pronto. A propagação amplificada da voz entra nos ouvidos da gente, no raio de seu alcance, é sem pedir licença. Vai entupindo o juízo mesmo sem permissão. E aqui nos deparamos com os dois principais parâmetros que definem o tamanho da responsabilidade do portador de um microfone: O conteúdo da infâmia que é propagada e o volume que a coisa se espalha sem respeitar muro, parede ou janela. E quer saber? Tem vezes que nem microfone precisa. Basta um carro, um porta-malas aberto e um imbecil com uma latinha de cerveja na mão pra desgraça estar feita. E tome pagode de romantismo duvidoso, forró erótico eletrônico, axé-music de alto impacto e sertanejo, vítima de adultério, a encher nossos ouvidos.
Mas o tal do microfone é danado. As lojas de equipamento de som deveriam exigir a tal carteirinha do comprador principalmente se fosse político, cantor ou pastor.
- Ta com a carteira aí? Deixa eu ver. Ih! Não vai dar pra vender, ta com a validade do psicotécnico vencida.
A carteirinha era coisa pra ser controlada pela Segurança Pública. Podia até se fazer uma campanha pra ajudar. O canalha ia numa delegacia, entregava o microfone e trocava por uma cesta básica. Diminuía a violência né?
O fato é que esses delinqüentes de microfone, viciados ou não, que atacam principalmente depois das dez da noite e aos Domingos o dia inteiro, se reproduzem mesmo em cativeiro nas piores condições e em diversas categorias. Senão vejamos: As adoradoras do axé são umas meninas baixinhas de sainhas curtas, “topes” e botas, que aos berros insistem para que você tire os pés do chão e lhe convidam para um lugar que só elas sabem onde é repetindo sempre “vamo lá galera”. Os pagodeiros galantes são uns rapazes com cabelos descoloridos ou ensebados de gel, que só usam camisetas sem mangas e pensam que cantam feito cariocas cheio de esses e “cê agás”, meio assim: “Corachão, para que she apaichonou, por alguém que nunca tchi amou...”. Uma barbaridade. E tem os sertanejos traídos que no meio das apresentações dão preguiça e botam os outros pra cantar: “Agora só vocês”. E esses ainda são surdos, ficam falando assim: “Quero ouvir, quero ouvir”. E você em casa, na tranqüilidade do seu lar só queria uma coisa: Não ter que ouvir.
Um dia desses a lei da carteirinha sai e a gente bota controle nos microfones.
- E aí, vai rolar o som?
- Não vai dar. Rolou uma lei de um deputado aê que eu não sei nem quem é: Um tal de Decibel.

Um comentário:

Pantera disse...

rssrsrsrrssr,,muito boa,,adorei