Bote fé.
Não conheço uma civilização ateia. Parei pra pensar e não achei nenhuminha. Uma ilha perdida no Pacífico, uma comunidade esquimó, lá um povo aborígene no alto de uma montanha ou uma vila agrícola amazônida e vegetariana. Toda civilização arruma um deus.
Deus, essa concepção humana, parece antes de divina, necessária. Não dá pra viver sem um ou sem deus e sabe por que? A gente, bicho gente, produz cultura o tempo todo. E deus é cultura.
Crianças sentem medos. Medo do escuro, do bicho papão, de cachorro, medo de cair e de não lavar as mãos. Tudo é fruto da cultura que lhe está sendo ensinada ou imposta. É medo criado.
Cresce-se e vêm outros medos: Medo do fracasso, da professora, da polícia, tem o medo das contas a pagar, medo de perder o emprego e tem também o medo do escuro, esse nunca acaba.
É fisiologismo puro mas está lá, ou aqui, o medo.
O que cura o medo? Respirar lentamente? Psicanálise? Círculos de debate? Uma oração? Opa! Uma oração é tudo isso, junto com um Lexotan. Rezar resolve tudo, menos fazer você ganhar na Mega Sena, evitar que alguém morra ou que o seu amor volte pra você.
Mas além de evitar nossos medos, orar trás conquistas.
Imaginem se toda oração fosse atendida?
— Vou rezar pra deus, uma novena, uma trezena, fazer a romaria, dar tudo que tenho pro pastor, vou matar um bode, subir as escadas de joelhos, fazer jejum, meditação, vou caminhar sobre as brasas, jogar uma virgem no vulcão e minha graça vai ser alcançada.
É um sacrifício e uma graça, que beleza,
Pronto, juntou tudo. Juntou o fim dos medos com os desejos realizados. E onde você encontra tudo isso? Ra Rá! Numa religião cumpadi.
Arruma uma véio.
Ok, não sou de dar conselhos, mas toma cuidado com o clero. Fica de olho no pastor, no padre, oráculo, xamã, fica de butuca em quem fala em nome do deus que você escolher. Esses dão trabalho. Na verdade são os porta-vozes do divino o maior pepino da história toda. São uns irresponsáveis sabe? Esses caras não tem medo e nem acreditam nas graças que ditam. Falo que são irresponsáveis por que o pecador quando peca se perdoa mas o pregador quando peca, eita pau, acaba no Facebook.
Tudo se resume na fé. Com fé tudo vinga.
Então, olha aí: Tudo é fé.
Que tal botar fé em você, rezar pra você e acreditar em você?
Que tal acreditar que você pode acabar com todos os medos e conquistar todas as suas ambições?
Bote fé em você.
E se você um dia encontrar Buda pela frente mate-o.
Nota:
- David Sento-Sé
- Menino besta cheio de sonhos aprisonado no corpo de um homem sóbrio e cheio de desejos.
Escolha a dose.
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quarta-feira, 10 de agosto de 2016
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
É de matar
“Vou sair pra passear, vou deixar pelo caminho brinquedinhos de matar” Acreditem, acordei hoje seis e meia da manhã ouvido essa frase. Quer pior? Era um verso de uma música que estava sendo cantada por um coro de rapazes, que corriam pela rua, em frente ao meu prédio.
Não, mas espera aí que tem mais: Os jovens, vestindo shorts curtinhos e camisetas de malha sem mangas, tênis Conga e meias brancas, como se tivessem sido congelados nos anos 70, eram valorosos membros do nosso glorioso exército brasileiro.
Bem em frente à minha varanda mudaram a cantiga que marca a cadência da ginástica forçada: “Se for inimigo cê já sabe como é, mata velho ou menino, mata homem e mulher”.
Parei pra pensar.
O ministério da Educação tem 41 bilhões de reais de orçamento enquanto as “Força Armadas” recebem 54 bilhões. Mais de 90% desses 54 bilhões é gasto só com a folha de pagamento, de ativos e inativos, onde incluem-se viúvas e filhas que nem casar se casam para não perderem o benefício. Com o resto da grana acho que eles compram comida e tinta branca para pintar meio fio de quartel, que aliás, pense numa coisa bem cuidada é quartel.
Tá bom, tá bom. Eu sei que tem muita gente boa nas forças armadas e tal, mas bem que a gente podia botar eles para apagar incêndio, prender bandido e socorrer acidentados ao invés de levar eles para passear e deixar pelo caminho “brinquedinhos de matar”.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Olhe pra mim
Nesse exato momento, oito e quarenta e cinco da noite, acabei de sair do meu chuveiro e abri a janela pensando no que tenho pra fazer amanhã.
Pela janela, vi o resto do mundo sem que o mundo pudesse me ver:
São 21:50 em Buenos Aires e Eva chora sentada no chão do chuveiro, relembrando em culpas, os momentos terríveis do aborto praticado mais cedo.
6:24, Nova Deli. Abhaya, 12 anos, tempera abobrinha com pimenta para o desjejum, com o chá de cardamomo, enquanto agradece a Mahadevi, um deus.
O velho Abadir, no leito de palhas em Atenas as 3:55, acorda assustado com a lembrança dos pára-quedistas alemães que ainda o assombram.
Augustin também não dorme às 2:55. Olha o teto fixamente ao imaginar-se na praça de touros em Madri pela manhã.
Li, de Pequim, matou uma galinha as 8:57. Era a última. Ela esperava vender no mercado, mas a fome falou mais alto.
17:56, em Seattle, Anne Marie caminha com o frio da tarde, esperando não ser assaltada até chegar em casa.
Em Dublin são 1 da manhã, Devlin, sentado na sala escura, olha a última pilha de batatas guardadas para uma sopa. Desde os atentados ele não arruma emprego. Seus filhos dormem.
4 da madrugada, Cartum, Sudão, Sidding esconde a última barra de chocolate, salva das mãos de vizinhos, na luta por mantimentos atirados pelos pára-quedas da ONU.
3 da tarde, em Honolulu, Malu devora sua quinta asa de franco sentada na frente da TV.
Quase 8 da noite em Lima e Ruan ainda está limpando o altar, na Igreja de Miraflores, para a missa da manhã seguinte.
Em Apia, 3 da tarde nas Ilhas Samoa, Drika finalmente morreu. Parentes e amigos estão de pé na porta da tenda tosca. Os homens açoitam-se e as mulheres choram em silêncio.
11 e meia, perto de Adelaide, Gundoii, um aborígene, escolheu a sombra da última árvore como local ideal para esfolar o canguru abatido.
E em Nuuk, Dinamarca, 10 da noite, a esperada Giselle finalmente nasceu. Ela tem Síndrome de Down e será muito amada por seus pais.
Por vezes, a gente consegue ver muito além das nossas janelas.
Por vezes, a gente consegue ver um mundo inteiro ao nosso redor.
Por vezes, a gente consegue ver alguém muito longe da gente.
Por tanto tenha certeza: Sempre, ao menos uma pessoa, está olhando pra você. Agora.
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quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Diferente
Eram ele e aquele paninho a fazer carinhos no velho balcão de cedro polido no óleo de peroba. O balcão, amigo silencioso e ouvinte passivo de seus pensamentos, era a única testemunha confiável dos seus últimos vinte e um anos de vida. Seu nome, Uélintom, escrito assim mesmo, era completamente desconhecido por todos, da mesma forma que era de um total desconhecimento a sua própria vida. Afinal, viver para ele, se tratava apenas da vida dos outros, daqueles que se sentavam do outro lado balcão. Da vida dele ninguém ali sabia ou se importava em saber.
Ele? Ele era o primeiro a chegar e o último a sair do bar, bar que, aliás, já estava no terceiro nome, já havia trocado de equipe dezenas de vezes e sofrido algumas reformas. Só mesmo ele continuava o mesmo. Caladão, sorriso meigo, olhos de verde antigo, prestativo e elegante. Jamais havia sido visto sem a gravatinha preta, o colete e a cabeleira prateada penteada a esmero.
-Ô Cabeleira!Bota mais uma aqui, por favor? – Para todos, ele era apenas o Cabeleira.
Desabafos de corações partidos, festas de aniversário, descasadas carentes, despedidas de solteiro, galantes paqueradores, casais entediados, e o famoso “repiau”, como ele mesmo dizia, eram a sua vida. A vida dos outros.
-Ô Cabeleira! Bota um chorinho aí vai?
Ele botava um chorinho, lavava os copos e taças maculadas de batom, arrumava garrafas a meio ventre vazias; cortava rodelas simétricas de limão, enchia baldes sedentos de gelo e voltava ao cúmplice paninho. Polir o balcão era pra ele o único ato de carinho, carinho físico eu me refiro, era o único “tocar em alguém” e ele o alisava, horas como quem esfrega escadaria de igreja, horas como quem faz carinho na bunda gorda de uma velha esposa.
Cabeleira era querido. Amado? Amado não, só querido. E era querido apenas por que ouvia. Ouvia como ninguém: Ouvia desabafos de corações partidos, o baterem de palmas nos “Parabéns Pra Você”, jovens senhoras carentes, nubentes esperançosos, “Don Ruans” fanfarrões, ouvia o silêncio do tédio de casais em crise e mesmo no Happy Hour, reservava-se apenas o direito de murmurar:
-É... Podia ter sido diferente, quem sabe? Não é verdade?
Dois anos depois do dia em que Cabeleira não apareceu para trabalhar, quando já um novo barman, que fazia até mágicas e malabarismos com garrafas ocupara seu posto atrás do balcão empunhando um longo cabelo negro preso num rabo-de-cavalo, entrou no bar uma senhora. Entrou ansiosa, trazendo pela mão uma jovem de seus 20 anos com olhos de verde antigo e um papel na mão a conferir o endereço.
-Boa tarde, eu queria falar com Wellington, por favor. – Disse ao novo gerente da tarde.
- Queira me desculpar senhora, mas não trabalha ninguém aqui chamado Wellington.
A jovem de olhos verde antigo tomou a mão da senhora de cabelos grisalhos entre as mãos e disse:
- Vem mãe, você já procurou em todos os bares dessa cidade, não poderia ter sido diferente, não é verdade?
Do fundo do balcão alguém gritou:
- Ô Cabeleira, bota mais uma aqui, por favor?
E a vida seguiu, diferente. Não é verdade?
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Lições
Seu Manuel era leiteiro. Isso mesmo: Leiteiro. Coisa do tempo em que leite era entregue nas portas, derramado de tonéis de alumínio nas jarras levadas por ávidos clientes no amanhecer suburbano. A cena era bucólica sim. Aos sons de Papa-capins, Tizius e Sabiás, parava à porta das casas um velho Ford, verde e preto, tipo perua, donde sairia um também velho senhor, cabelos brancos raspados à máquina número dois, cinto de couro roto atado por milagre à cintura, velhas botinas cansadas, camisa de quadros sertanejos e a exibir uma suspeita barba branca, sempre por fazer, como se aquele homem repousasse o queixo em farinha alva todas as manhãs.
Seu Manuel fedia. Fedia muito ao leite azedado e impregnado nas poucas vestes dia após dia. Enquanto moscas se açoitavam nos vidros da perua, na tentativa inglória de um repasto matinal, o diesel queimado, o leite e seu Manuel em si, agrediam a suave e gentil brisa de uma manhã pueril ao som de passarinhos. No fundo era repugnante. Mas, Seu Manuel sorriria e isso, além de apagar o incômodo, encheria o ar de alegria.
– Bom dia rapaziada da canela suja! – exclamava como se pela primeira vez o fizesse.
Nós, garotos simples e mal mimados, que sentados aos muros aguardávamos o leiteiro todas as manhãs, sorriamos de volta e em algazarra, o cercávamos de mimos como se ele fizesse chover Drops Ducora.
– Quantos litros quer a mamãe hoje? – perguntava – Foram bem nos testes de matemática? Menino andas a matar passarinhos de estilingue? Opa! Não lavas bem estas orelhas ó putinho? Tu ralhastes com tua irmã ainda ontem pimpolho?
Seu Manuel parecia adivinhar o nosso modesto cotidiano com uma precisão de quiromante. Como ele sabia de todas aquelas coisas? O velho português era um adivinho? Sorria e olhava nos olhos da gente, mais ainda, olhava dentro da gente. Seu Manuel sabia nossos segredos. Todos eles.
Só nós, garotos espertos, pré-amadurecidos na necessidade da sobrevivência, tínhamos a resposta: Seu Manuel fingia ser leiteiro, aquilo era um truque dele. Mesclado em todo aquele quadro desagradável de cheiros, moscas e estocadas nos nossos segredos, pois, até mesmo sabendo que de leite mesmo nenhum de nós gostava, ele disfarçava.
O segredo real era o nosso, todos nós sabíamos e não revelávamos: Seu Manuel era na verdade Papai-Noel, que se disfarçava de leiteiro para nos testar durante todo o ano na espera de uma melhor avaliação, para fazer justiça na decisão final a cada Dezembro: Receber ou não, o presente esperado.
Cínicos, sempre tratamos bem Seu Manuel. E sempre fomos bem avaliados, pois mesmo modestos, nunca nos faltaram presentes no Natal.
Cresci. Crescemos todos não? Não sei bem.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Correr atrás
A bolinha de papel voou sobre alguns alunos atingindo o alvo. Imediatamente Camila virou a cabeça, olhos em busca dos olhos da melhor amiga. Era sempre assim quando Malú precisava lhe falar urgentemente. Não dava para esperar o recreio.
– (Amiga, so-cor-ro, mes-tru-ei.) A leitura labial, precisa e bem praticada, completava a comunicação silenciosa entre as duas.
Soou a campanhia e ambas saíram em disparada. Era no banheiro das meninas, na hora do recreio, que a amizade entre as duas se solidificara.
– Você não está de Modess? Você é doida? Tá toda melada, olha que meleca!
– Não sabia que ia chegar, não tou acostumada ainda com isso. E agora? O que é que eu faço?
– Pera Malú que eu te ensino – A prática da Camila era surpreendente sempre. Dois dedos da mão direita, dois dedos da mão esquerda, papel higiênico bem enrroladinho e estava pronto o absorvente artesanal e providencial. – Esse tamanho tá bom?
Era sempre assim, a mais novinha recorrera por toda a adolescência aos préstimos da melhor amiga do mundo para tudo. Camila era o farol de Malú.
– Amiga ele me pediu um beijo na boca hoje. E eu vou dar. Mas como é que eu faço?
– Simples. – sempre prática – Você abre um pouco a boca, não muito e vira a cabeça pro lado. Ai beija.
– Lado direito ou esquerdo?
– Qualquer lado Malú, poxa vida!
– E se ele virar pro mesmo lado? Não vai bater o nariz?
– Ai você vira pro outro droga! E ai você poe a lingua na boca dele e ele poe a língua na sua boca.
– E eu faço o que com a língua dele dentro da minha boca?
Camila faria uma cara de séria.
– Ai Malú como você é devagar menina. Primeiro beija amiga, depois é só correr atrás dos seus sonhos.
Os anos passaram, as vidas caminharam e caminharam sem mais se encontrar, até o Orkut as reunir outra vez.
Camila do Amaral Pestana
aniversário: 18 de outubro
interesses no orkut: amigos, paquera, balada,
estado civil: Já casei e não gostei, SOU LIVREEEEEEEE!!!!
filhos: Dois do primeiro e um do segundo, é mole?
etnia: não entendi a pergunta
religião: loge de mim
fumo: sim
bebo: muito
quem sou eu: Sou quem sou e meu futuro é agora. Odeio planos. Não creio em fantasia nem perda de tempo.
Maria Lúcia (ou só Malú)
aniversário: 11 de março
interesses no orkut: contatos profissionais
estado civil: casada
filhos: Alexandro 12 anos, Matheus 13 anos e Camila 5 aninhos
etnia: minha alma não tem cor
religião: Somos católicos
fumo: não
bebo: nunca
quem sou eu: me acham assim... uma pessoa meio devagar, mas como uma amiga muito querida me recomendou, um dia vou correr atrás dos meus sonhos.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
A Lei do Decibel.
-Cachorro! Safado! Sem vergonha!
Pulei da cama. Tinha certeza que não era comigo. Não tenho o perfil e minha mulher jamais me trataria assim mesmo que algo terrível tivesse acontecido na noite anterior. Cachorro ! Safado ! Sem vergonha ! A voz insistiu invadindo a penumbra do quarto e passei a me culpar por sonhos pecaminosos que talvez Morfeu me proporcionara e dos quais, infelizmente, eu não tinha a menor recordação. Cachorro ! Safado ! Sem vergonha ! Vinha lá de fora, corri e abri a porta da varanda. Vinha do além, do éter, do céu. Talvez Maria do alto das nuvens sem esperar o juízo final, tivesse perdido a paciência e resolvesse me julgar e condenar naquela manhã de Domingo. Não era ela. Recobrada a consciência percebi que era apenas um microfone, na mão de uma louca que reproduzia versos insensatos numa paródia de canto, o responsável pelo meu despertar. Mas a culpa não era do microfone, era mesmo da louca ligada anatomicamente à mão que o empunhava.
Num país de tantos crimes e leis alguém lá em Brasília deveria talvez, num surto de sensatez, criar uma legislação para o uso de microfones. Uma carteira de habilitação, quem sabe? O cidadão faria um curso, umas aulas práticas, uns testes básicos: Voz, domínio da língua, educação doméstica que fosse, cultura geral e quem sabe até, legislação ambiental que está na moda. Aí, e só aí, tirava carteira pra usar microfone.
Microfone é coisa perigosa, não dá pra botar a boca nele e pronto. A propagação amplificada da voz entra nos ouvidos da gente, no raio de seu alcance, é sem pedir licença. Vai entupindo o juízo mesmo sem permissão. E aqui nos deparamos com os dois principais parâmetros que definem o tamanho da responsabilidade do portador de um microfone: O conteúdo da infâmia que é propagada e o volume que a coisa se espalha sem respeitar muro, parede ou janela. E quer saber? Tem vezes que nem microfone precisa. Basta um carro, um porta-malas aberto e um imbecil com uma latinha de cerveja na mão pra desgraça estar feita. E tome pagode de romantismo duvidoso, forró erótico eletrônico, axé-music de alto impacto e sertanejo, vítima de adultério, a encher nossos ouvidos.
Mas o tal do microfone é danado. As lojas de equipamento de som deveriam exigir a tal carteirinha do comprador principalmente se fosse político, cantor ou pastor.
- Ta com a carteira aí? Deixa eu ver. Ih! Não vai dar pra vender, ta com a validade do psicotécnico vencida.
A carteirinha era coisa pra ser controlada pela Segurança Pública. Podia até se fazer uma campanha pra ajudar. O canalha ia numa delegacia, entregava o microfone e trocava por uma cesta básica. Diminuía a violência né?
O fato é que esses delinqüentes de microfone, viciados ou não, que atacam principalmente depois das dez da noite e aos Domingos o dia inteiro, se reproduzem mesmo em cativeiro nas piores condições e em diversas categorias. Senão vejamos: As adoradoras do axé são umas meninas baixinhas de sainhas curtas, “topes” e botas, que aos berros insistem para que você tire os pés do chão e lhe convidam para um lugar que só elas sabem onde é repetindo sempre “vamo lá galera”. Os pagodeiros galantes são uns rapazes com cabelos descoloridos ou ensebados de gel, que só usam camisetas sem mangas e pensam que cantam feito cariocas cheio de esses e “cê agás”, meio assim: “Corachão, para que she apaichonou, por alguém que nunca tchi amou...”. Uma barbaridade. E tem os sertanejos traídos que no meio das apresentações dão preguiça e botam os outros pra cantar: “Agora só vocês”. E esses ainda são surdos, ficam falando assim: “Quero ouvir, quero ouvir”. E você em casa, na tranqüilidade do seu lar só queria uma coisa: Não ter que ouvir.
Um dia desses a lei da carteirinha sai e a gente bota controle nos microfones.
- E aí, vai rolar o som?
- Não vai dar. Rolou uma lei de um deputado aê que eu não sei nem quem é: Um tal de Decibel.
A competência de cada um.
E daí? Você votou na mãe de alguém? Sabe lá se o cunhado dele sabe mexer no Windows? E será que a sobrinha do ex-marido da moça que apresentou o cara que vendeu o velho fusquinha da sogra do porteiro do prédio que morou a primeira namorada de um colega de república de estudantes onde estudou o irmão daquele gordinho, como era mesmo o nome dele? Bom, aí nesse caso será que é parente? E será que a questão é ser ou não ser parente? Ser ou não competente? Ou ser ou não da conta da gente? E parente entra em cédula eleitoral que nem existe mais? Ou está no retratinho da urna eletrônica junto com o candidato? Ali abraçadinho, ou aparece no horário gratuito eleitoral? Como seria a campanha? Para ex quase futuro sogro vote Adamastor com o número 477.45321. É parente, mas trabalha. Ou ainda: Vote Adamastor. O parente assessor.
O fato é que a gente elege o cara ou manda a criatura pro congresso, pra câmara, pra assembléia, pro palácio os cambaus, porque acredita nele ou nela e será apenas o que ele, ou ela, vier a fazer lá que vai garantir a qualidade desses mandatos, o sucesso da nossa escolha, o cumprimento da missão ou pior, a sua própria e desejada reeleição. Não, o trabalho, ou melhor, a participação do eleitor não acaba aí não, não estou dizendo isso. A gente não é Gelol, mas tem que participar. Tem que dar opinião, chegar ou tentar chegar junto. Tem que escrever e-mail, carta, telefonar, tem que reclamar, elogiar, dar esporro, entrar na “Cartas do Leitor”, qualquer coisa que possa colaborar com o mandato. Eu falei co-la-bo-rar. Não falei ficar jogando pisica e na falsa-moral, ficar apontando defeito com dedo sujo não.
Rapaz minha mãe costura e borda que é uma beleza, mas se entendesse mais que eu de Reforma Tributária já tava empregada no meu gabinete. Ou você preferia que fosse a sua mãe? Bom, ta certo, não vamos botar a mãe no meio, ou no cargo. Sabe o que é pior? Pior é a turma eleita ficar escondendo o jogo. Contrabandeando parente, traficando cunhado, sobrinha, irmão. Fazendo troca-troca de parente em gabinete, é um absurdo. Você bota no meu que eu boto no seu. Um horror.
A questão é mesmo de competência moral do eleito. Ou tem ou não tem. A capital mudou-se para Brasília e um exército de funcionários da casa permanece nas praias do Leblon e Ipanema. Cargos são quase que hereditários entre secretárias, taquígrafos e foto copistas. Coisa de família sabe como é né? Mas tudo concursado viu? No sertão o vereador nomeou o jumento assessor de transportes. Qual é o problema? Este ao menos, nas costas, levava o parlamentar para o trabalho muito mais que o cunhado da prefeita nomeado como motorista. Na porta do deputado lia-se “Dá-se D.A.S. 50% de comissão”. Um senador fez publicar: “Indica-se cargos federais, estaduais, municipais e imorais”.
Votou ta votado meu amigo e vamos ver no que é que dá. Se não prestar não volta e pronto. Vai-se agora querer criar uma lei pra regular quem faz lei?
- Ah! É parente? Em que grau? Em primeiro e segundo grau na lei não pode.
- É amante.
- Ah! Amante não é parente. É carente e carente pode.
- Mas é amante em primeiro grau rapaz, olha o respeito!
O melhor é ver antes se o candidato tem ao menos primeiro ou segundo grau completo. Não que faça diferença apenas ajuda a entender se em breve, em algum plenário ou gabinete se ouvir o diálogo:
- Ih colega, vinha andando ali pisei num nepotismo que fizeram bem no corredor.
- Ih rapaz! Pisou? Vai feder.
Modelo de que?
Acho que foi no paleolítico que tudo começou. Lá perto dos idos de 103.000, 101.000 anos antes de Cristo, que mesmo com uma linguagem muito rudimentar, num grupo de hominídeos catadores de amoras, uma fêmea muito provavelmente, apontando a companheira de bando com maior capacidade de catar frutinhas, disse pela primeira vez: “Eu queria ser como ela.” Daí há alguns milhares de anos depois, um australopiteco inventou que o bom mesmo era ser pitecantropo, que por sua vez confessou a um tablóide da época que era mesmo fã dos neandertais.
De lá pra cá as coisas mudaram um pouco mas o espírito continua o mesmo. O ideal estaria sempre um passo acima na cadeia evolutiva. Todo mundo e todo o mundo queria evoluir, coisa até certo ponto muito justa, até que algum marketeiro, muito provavelmente também, inventou que evoluir não era ser melhor, era “ter” o melhor. Estava criada, lamentavelmente, a sociedade de consumo e com essa nova era, surgiam os modelos na sua acepção mais ampla, modelos do melhor para serem seguidos como ideal. Aí não deu mais pra segurar, os ícones se sucederam e a turma foi indo atrás dependendo da divulgação da imagem e a história está aí para provar.
Os gregos inventaram o primeiro desfile de moda lançando sandálias e saiinhas usadas por ricos e pobres e assim saiu Alexandre pelo mundo em suas conquistas virando o padrão de todo um império até ele morrer de inveja dos jardins suspensos que encontrou na Babilónia. Ninguém no Egito tinha a grana da Cleópatra pra comprar aqueles modelitos que ela usava, mas todo mundo pintava os mesmos risquinhos nos olhos enquanto em Roma bacanal era moda em todos as classes sociais. Eram padrões, eram os modelos.
No mundo ocidental moderno Montesquieu, Diderot e Rousseau até que se esforçaram para manter em alta um modelo iluminado mais próximo do verdadeiro evoluir, (A igualdade de todos perante a lei, a tolerância religiosa e a livre expressão do pensamento) até que um dos 23 Luíses, o XV, ponto alto do absolutismo, esculhambou tudo virando estilo, de salto a poltrona. E todo mundo queria ser como ele até a guilhotina cortar o mal pela raiz. Mas a burguesia queria mesmo era o consumo e veio a Revolução Industrial produzindo em série novos padrões para as massas. Coisa de inglês colonizador e imperialista. Seus herdeiros os Americanos do Norte tornaram-se especialistas nesse novo e promissor negócio do padrão a ser seguido. O artifício que nos abestalha como ovelhas é um velho conhecido: O Ícone. Uma pessoa ou coisa emblemática do seu tempo, do seu grupo, de um modo de agir ou pensar. Tudo bem com as sandálias de Alexandre, as togas de César, as plumas do Cyrano de Bergerac, a Cartola de Abraham Lincoln e até mesmo o charuto de Winston Churchill, eles eram os bambas e os simples mortais realmente se sentiam muito melhores ao tentarem se parecer com eles, era quase um processo natural. Não tão natural foi, com a chegada do século XX, o advento do aparecimento dos ídolos, e aqui eu não me refiro aos de pedra mas aos de carne e osso. O ídolo é um personagem que por talento ou comportamento atinge o paladar e transforma-se num padrão a ser seguido. Por consequência tome-lhe topetes de Elvis, lambretas de Mastroiani, meias da Sofia Loren, jaquetas do Marlon Brando e até os cigarros do Humphrey Bogart. Ídolos. Eles usavam o que era moda ou seria moda o que eles usassem? O caminho estava aberto.
No Brasil, pobres de nós, a história foi ingrata. Desde Cabral e sua religião enfiando calções nos Guaranis e moçoilas em bangüês exibindo negrinhos de estimação, até a arrotante Coca-Cola consumida em Big-Brothers, que os padrões de moda e comportamento nem sempre seguiram valores lógicos ou até mesmo morais. Historicamente todos os nossos modelos foram importados. Das Cortes de Lisboa até Hollywood, de Woodstock à Che Guevara, da Discoteca à Rave aceitamos muito e sofremos um bocado, mas fomos levando, comprando e usando o que o padrão determinasse.
Então porque razão dos corpetes à calça Lee, ambos irrecomendáveis para os trópicos, nós aceitamos o padrão? Note que ninguém nos diz que é melhor. Alguém diz que assim, parecendo-nos com nossos ídolos nós ficamos melhores. Dizem que isso nos melhora e que por isso devemos usar e mais ainda, devemos comprar, consumir. A indústria se atrela aos nossos ídolos como nós nos atrelamos a eles e isso é um fato. Tudo bem, o modelo daqui não foge a regra mundial, parece apenas um pouco mais piorado quando a indústria de ídolos é a que mais fatura independente do seu péssimo padrão de qualidade. E isso apavora.
Sem talento ou sem valor real e na maioria dos casos sem moral ou até educação, alguns dos nossos ídolos pré-fabricados são servidos frios e mal acabados enquanto a indústria nacional se lambuza. A sandália agora é a da dançarina despudorada, o cabelo é o do pagodeiro traficante enquanto a modelo, modelo, casa em castelo e arma barraco.
A nós, Homo Sapiens Sapiens, só nos falta agora ver a indústria oferecer o retrocesso de um modelo Cro-magnon.
Seu Oscar da farmácia.
Ela olhava o teto da farmácia como se não fosse com ela. O ar ingênuo de menina nova ignorava os impropérios. Mas lá, do alto da escada de correr, a frente das prateleiras forradas de remédios e a vista de todo mundo, seu Oscar bradava sua costumeira indignação. Afinal, eram as mudanças do tempo que ele não conseguira acompanhar, onde já se viu, ele, naquela idade, cavanhaque branco do tempo, farmacêutico graduado na escola de enfermagem de Faculdade Federal, um homem de bem, de valor, atender uma desavergonhice daquelas. E ela ali. Parada batendo o pé como se nada estivesse acontecendo.
- Vergonha. Falta de vergonha. Não tem cabimento. Se fosse minha filha eu botava interna no São José e não tinha saída nem Domingo de Ramos.
Em toda Itapagipe a fama de conservador de seu Oscar corria longe. Patrono do São Salvador, melhor padrão de regatas que a Bahia já viu, benemérito dos Romeiros do Senhor do Bomfim, Irmão Capuchinho e “Cadeira Cativa” no andor da procissão do Senhor Mortono fim do ano, ele era o que poderia se dizer um homem com idéias próprias sobre moral e bons costumes.
- Messalinas. Onde já se viu. E eu a me sujeitar um desplante desses.
Ninguém estranhava mais cenas como aquelas, afinal tava na TV fazia tempo. Até o Governo Federal e Estadual, já de muito dava guarida e recomendava a serventia do dispositivo. Era uma questão até de segurança, de proteção, de modernidade. Mas seu Oscar não. Modernidade os quintos do Judas que ele não ia ficar fazendo papel de besta se expondo moralmente, na farmácia que fora de seu pai, outro grande homem de bem, que Deus o tenha em boa guarda, atendendo a essas modernidades que aparecessem pensando que Rede Globo de Televisão pode mudar os costumes de quem sempre dormiu de pijamas, portou guarda-chuvas, escreveu a mão e não admitia o pouso do homem na lua, sendo isso tudo na verdade uma invenção da televisão cheia de truques do cinema americano, tudo para manter o Brasil e outros países do terceiro mundo, coisa que eles mesmo inventaram, essa história de terceiro mundo, mesmo prova disso é que ele, com sessenta e dois anos, nunca tinha ouvido falar em país do segundo mundo – taí mais uma prova até – e ele não achava graça nenhuma nisso.
- Coisa de quem tem doença. De quem não tem vergonha de guarda noturno nem também de chegar em casa de madrugada, com os sapatos no dedo, de mansinho e ainda dizer a mãe que tava com o pessoal conversando na esquina. Eu mesmo que não acreditava. Falta e cinta, tabica, falta de cinturão.
Ela? Impassível. Bolsa aberta, esperava apenas seu Oscar acabar o discurso e despachar logo de vez o pedido pra ela pagar e ir embora que o cara no Gurgel já tava buzinando. A farmácia podia vir abaixo que ela não se abalava. Deus era testemunha de que com vinte anos, já trabalhando e independente não iria dar ouvidos a ninguém. Muito menos a seu Oscar.
No caixa, pelo buraco no vidro numa última tentativa de envergonha-la e com isso dissuadi-la da idéia de adquirir tal produto, seu Oscar encostou a boca e lascou.
- E pra curar essa gonorréia não vai querer nada não?
Impassível, ela olhou nos olhos do velho farmacêutico. E num misto de pena e benevolência suspirou.
- Seu Oscar, não são duas camisinhas. São duas caixas.
O tamanho do rabo alheio.
Acho que tudo começa mesmo é na nossa mais tenra idade quando ainda crianças uma vontade inexplicável clama de dentro da alma e a gente grita:
- Manhê!O Dinho ta metendo o dedo no nariz.
O que é que a gente esperava? Será que a gente achava que a mãe da gente iria largar tudo e viria dar uma surra no “Dinho” por conta do tal dedo no nariz? Que prazer mórbido seria este de ver o irmão ser espancado pela mãe por um ato tão banal? Não, não é nada disso. De certo se a mãe aparecesse, o que eu duvido, com um chinelo na mão pronta a atender as nossas expectativas, o primeiro sentimento seria o de arrependimento e o segundo seria o da defesa do próprio “Dinho”.
- Bate não mãe.
Mas no dia seguinte a vontade voltava. O tal prazer mórbido, a tesão de denunciar, de apontar a falha, o defeito, o erro. Isso falsamente faz da gente um pouco melhor do nos julgamos. – Vê? É ele e não eu quem está errando. Falhando, mentindo, traindo, seja lá o que for. – Mas não sou eu. Eu? Eu não. Fui eu quem apontou o erro, portanto eu não erro. Eu sou melhor. Errado. A gente erra sim, erra também. Todo mundo erra e reconhecer os próprios erros deveria ser humano.
Desumano é apontar um dedo imundo na direção de incautos e ver a “máquina” , também desumana, dar chineladas a torto e direito sem ver propósitos, avaliar os interesses envolvidos e o caráter de cada um.
“Macaco, olha teu rabo.” O ditado é ainda mais velho que o tamanho do “rabo” da gente. As falhas que apontamos na infância sem maldade aplicam-se como amálgama no caráter de cada um a depender do tamanho do “rabo”. Do último pedaço de bolo roubado na surdina, do jarro quebrado e omitido, das traquinagens inocentes às falcatruas espúrias, à corrupção e ao favorecimento ilícito gravita a lógica da boa conduta. A dialética dos princípios, a civilidade, a educação de berço, a retidão.
O alcagüete, o dedo duro, esse faz e fará parte do processo ainda por muitos séculos, o diabo é a denúncia vazia ou inútil. Ou útil?
- Mãe, o Dinho ta com o dedo no nariz. E se você bater nele eu vou poder meter o meu dedo, no meu nariz e ele vai estar errado se disser a você que eu tou tirando meleca porque, afinal, o nariz é meu e meleca é minha e mãe...Mãe? Pra que é esse chinelo?
Macaco, olha teu rabo.
Ou será que é preciso mesmo apurar o tamanho do rabo alheio uma vez que ninguém vai olhar para o próprio?
-Senhor presidente, senhores membros desta CPI, senhores e senhoras congressistas, queridos amigos da incorruptível imprensa nacional, aos quais recomendo que o meu lado direito é o meu melhor lado para fotografias, eu afirmo e confirmo, mesmo sem ter provas, que aquele que ocupa agora o trono ao invés de mim está deslavadamente metendo o meu dedo no meu nariz.
Será que não tem ninguém aí nesse país com um bom chinelo na mão?
Um Oscar para o Big Brother.
No país do Big Brother, falar de cinema não dá audiência na televisão e isso é um fato. Lamentável, mas um fato concreto. Portanto mesmo com a Rede Globo oferecendo antecipadamente ao mercado publicitário um pacote de cotas de patrocínio, a as edições do Academy Awards, vulgo Entrega do Oscar, correm o risco de não serem transmitidas pela TV aberta. Apenas o canal pago TNT confirma a transmissão anual da cerimônia, ao vivo, desde a chegada dos astros e estrelas no Red Carpet do Teatro Kodak, Los Angeles. Quando a Globo assumiu o contrato do SBT com o grupo ABC/Disney, não incluiu o Oscar no pacote. A “Vênus Platinada” preferiu comprar os direitos de transmissão apenas depois de garantir patrocínios que paguem as contas, assim, só se ela encontrar quem banque ( Em média R$ 750 mil cada cota com chamadas no Jornal Hoje e Bom Dia Brasil) o escandaloso comediante e mestre de cerimônias, Chris Rock ou outro qualquer, irá ao ar depois do Fantástico.
Desde 1929 a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas premia, quase que antecipadamente os melhores do cinema. Os filmes e documentários na maioria das vezes ainda não foram vistos pelo grande público quando da entrega da premiação e essa inversão se dá por um simples dispositivo: Filme premiado tem sucesso garantido. Por isso os estúdios investem milhares de dólares na promoção das películas na disputa pela estatueta, já transformada em metáfora de qualidade. Com o Oscar “na mão”, a fita correrá o mundo arrecadando milhões. O alvo deste investimento são os Membros da Academia que representam os treze ramos da indústria: atores, diretores artísticos, fotógrafos, diretores, executivos, montadores, músicos, produtores, relações públicas, realizadores de curtas-metragens e animação, especialistas de som, especialistas em efeitos especiais e roteiristas. Quem são eles? Não me pergunte. Sei que são 5.080 e que recebem em Dezembro, pelo correio, suas cédulas de votação, daí em diante é puro mistério. Talvez um dia a Academia descubra a Urna Eletrônica do Brasil e facilite as coisas, mas até lá as votações se processarão mesmo é na munheca. E tudo pode acontecer mesmo. Até empate como em 1969 para melhor atriz com Katharine Hepburn e Barbra Streisand dividindo o prêmio, ou Anthony Quinn ser escolhido melhor ator com uma participação de apenas oito minutos na tela em Sede de Viver.
O que se discute na verdade são os critérios de escolha. Sabe-se que a Academia é conservadora e ostenta sem pudor uma tendência a premiar personagens de caráter firme como policiais incorruptíveis, militares ou figuras da história e que evita, sempre que possível, laurear atrizes e atores que representam bêbados, prostitutas, malfeitores ou simplesmente evita dar a estátua ao bandido do filme. Outro fato inquestionável é que esses 5.080 membros possuem os corações mais moles de Hollywood, vez por outra sai prêmio pra personagem deficiente, órfão, pobres miseráveis, heróis mutilados tudo pelas palmas e lágrimas. A exceção, no caso de delinqüentes ou viciados, vem apenas se estes se redimirem até o fim do filme. Pesava, porém sobre os ombros dos votantes a pecha de preconceito racial visto que só em 1939, com E o Vento Levou, Hattie McDaniel foi a primeira negra a receber premiação, fato não tão grave para os padrões vigentes se não fosse esta também a primeira vez que uma, chamada na época, “pessoa de cor” pisasse os pés numa entrega de Oscar. Daí a diante só em 64 com o inquestionável talento de Sidney Poitier a Academy venceria outra vez o preconceito. Nos dias de hoje, com o “Politicamente Correto”, Halle Barry, a mais gostosa Mulher Gato de 2004, arrebatou em prantos em 2002, o troféu de 34,29 cm e 3,85 kg como Melhor Atriz ladeada por Denzel Washington e outros afro-americanos também homenageados com prêmios honorários. Foi o ano da redenção.
A cerimônia em si é mesmo meio chata e um tanto lenta, muita pompa e circunstância, smokings, longos e penteados de gosto duvidoso desfilam excitados sob o sol da Califórnia durante a sonolenta madrugada brasileira. Depois tome-lhe discurso de agradecimento, que mesmo cronometrados ao sabor do intervalo comercial dão uma canseira danada. Graças a Deus agradecimentos iguais ao de Greer Garson, melhor atriz em 42, que durou nada mais nada menos que uma hora e quarenta e sete minutos, já não acontecem mais. Porém nada disso tira o brilho do espetáculo, os balés, as canções, os registros da história de Hollywood e vez por outra um bom momento de humor. Salvo quando na TV aberta, depois de uma risadinha, os tradutores dizem: Neste momento ele contou uma piada ótima. É uma lástima mesmo. Bons momentos também ficam por conta das gafes ou cenas inesperadas como protestos contra guerras, escorregões, discursos improvisados e estrelas meio nuas. Mesmo tachado de ícone da dominação imperialista da cultura yankee quando deixa o nosso OLGA fora das indicações, assistir a entrega vale a pena sim.
Como todos os anos, existe sempre uma lista de favoritos aos prêmios. Ao contrário de anos em que concorreram filmes como Bem-Hur, Titanic e O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei, quando cada um sozinho amealhou onze estatuetas, estes últimos anos as brigas teem sido boas. Façam suas apostas.
Deuses aposentados.
E por onde andam Tupã, Apolo, Osíris, Wakantanka e outros tantos deuses desaparecidos? Por certo, depois de tantos séculos de honrosa prestação de serviços à humanidade chegou a hora da merecida aposentadoria. De pijamas assistindo a CNN, o Jornal Nacional e sem a pesada responsabilidade de garantir a colheita, curar doentes, enriquecer gananciosos e até perdoar as nossas dívidas, eles devem estar se divertindo espiando de fora o destino do povo aqui na Terra.
— Você viu o Katrina? Pergunta Croom.
— Não tenho nada com a ver com isso. — Responde Seth.
No centro da sala sentado numa nuvem Zeus sorri com ares de superioridade.
— Não venha não Zeus. — Retruca uma pedra negra esquecida num canto e aposentada a mais tempo que os outros. — Não venha não viu?
Desde que o mundo é redondo e talvez um deus criou o primeiro homem e a primeira mulher, alguém, que não tinha mais o que fazer, resolveu explicar o inexplicável: Porque chove? O que é o Sol? Quem faz as ondas? Porque aquela índia horrorosa tem dois maridos e eu não? E aí, alguém, um pouco mais esperto disse:
— Foi Deus que quis.
Pronto tava explicado e ponto final.
Tava criado Deus. E junto, de quebra, tava criado o Pastor ou Gurú, Padre, Pajé, Guia, Oráculo, que era só quem falava com Deus e pior, em nome de “Dele”.
— E aí Xamã? Será que minha mulher tá me traindo?
— Trás ai um cordeiro que eu vou ler no bucho dele falou?
E é claro, depois de lido, o Xamã iria rechear o cordeiro com farofa, azeitonas pretas e folhinhas de hortelã. Uma receita Di-vi-na. Tava criado o dízimo.
O mais incrível é que Deuses brotaram aos borbotões por todo o mundo e é claro, sempre na mesma medida que nasciam os seus representantes na Terra. E Deuses controlavam a natureza, os sonhos, o futuro, o destino, a Bolsa de Nova Yorque. O mundo já teve Deus do fogo, da água, da terra, do ar, acreditem já teve Deus até pra bacanal.
Com o tempo e o tamanho do apetite do clero deuses saiam da moda. Se um Deus ficava muito chato o povo trocava e aparecia outro ou então um povo dominava o outro e dizia:
—Que nada! O Deus da gente é melhor. Olha só vou jogar vocês no fogo, se o Deus de vocês for porreta vocês não vão queimar, quer ver?
No outro dia tava todo mundo acendendendo vela e fazendo promessa pro Deus dos conquistadores e os deuses nativos eram aposentados compulsoriamente. Botavam o pijama e subiam aos céus. Mas com os novos deuses vinham as novas regras de moral e conduta e o que podia antes já não podia mais e vice-versa. Assim acabou a antropofagia, a pedofilia, sacrifício de virgem, dançar pelado na mata e até aquela estória de trabalhar dia de Domingo.
— E aí Gurú? Comer cachorro, dia de sexta-feira, depois das seis da tarde, sem tomar a bença a mãe e nem virar de lado pro totem é pecado? Deus castiga?
— Se não rechear o cachorro com farofa é pecado.
A confusão era grande. Você mudava de país mudava de Deus. Era muita regra nova, muita novidade, teve povo que viveu milhares de anos adorando a Lua aí saiu de férias e quando voltou teve um eclípse e o Pajé novo falou que a moda nova era um vulcão.
Mas os pastores e guias andavam meio de saco cheio de ventrilocar o divino e ficar cagando regra toda hora. Era tanta regra que tiveram de começar a escrever. Teve guia que subiu num morro e Deus falou com ele.
— Aqui estão os dez mandamentos que Deus mandou pra nossa tribo. — A voz do pastor ecoava no vale quando alguem gritou lá no fim da multidão:
— Mas só são dez?
— Eram quinze — respondeu —mas vai você tentar descer esse morro carregando três pedras desse tamanho. Uma caiu e quebrou.
Aliás, acho mesmo que depois de um certo tempo os Deuses começaram a falar bem baixinho, porque subir em morro pra escutar o divino virou mania em todo canto do planeta. Aí o cara descia do morro e na outra semana publicava um best seller, sucesso de vendas contendo as últimas determinações de Deus inclusive cassações de mandatos e impeachment de um monte de outros deuses. Não pode isso, não pode aquilo, olha Deus tá vendo, assim Deus quer, assim Deus mandou, se Deus quiser. Ficava mais fácil ainda adorar a Deus. Tava lá no livro, era só abrir e ler sem precisar ir perguntar ao Xamã. E inventaram também o templo, uma espécie de ponto-de-venda da “palavra” onde você vai e se conecta com Deus via rádio e resolve seus pepinos direto com o “homem”. Botaram lá no alto uma imagem do Deus, todo bordado a ouro, um monte de banquinho e você, de joelhos, fica diante do Senhor, do pastor e da caixa de óbulos. Prático não é? Tem quem diga que esses templos são a casa de Deus mas tá errado. Deus que se presa mora no céu, bem longe dos mortais e pecadores pra não ficar neguinho aí enchendo o saco batendo na porta e pedindo milagre.
Nos tempos de hoje anda até meio difícil trocar de Deus, ainda tem uns seis ou sete, com moral suficiente e um monte de fiéis, dando ordens no mundo. Bem embalados, com uma rede de franchisings bem distribuida, desígnios encadernados em capa dura e toda espécie de brinde e lembrancinha que você possa imaginar: Correntinha, chaveirinho, boné e camiseta, uma beleza de negócio. Mas a expansão de mercado tá ficando cada dia mais difícil. As provas do poder divino não sobrevivem mais a ciência moderna; a arqueologia, o Carbono 14, o microscópio e o Fantástico desmoralizam deuses numa pernada só. O jeito tem sido apelar pra ignorância e tentar ampliar o mercado na porrada com homem-bomba, mulher-bomba e até bomba-bomba.
Deus tá velho, chato e fora de moda. Ou Deus faz um MBA, uma pós-graduação ou um curso de extenção on-line pra se atualizar ou vai pegar o pijama rapidinho. O mundo já anda querendo novos deuses que estejam mais em dia com as questões sócio-culturais do capitalismo conteporâneo pós-industrial e finaceiro. Não há mais palavra divina que consiga dar conforto às carências do consumismo, do individualismo e da estética hedonista reinante no globo.
Deus precisa de um upgrade, seus representantes aqui na Terra perderam o rumo do mercado e andam morrendo de medo de perder a farofa. Um dia desses desce um disco voador aí, sai um carinha verde de dentro e diz:
— Bii, tathy tatuí, lholholhó.
E a gente vai ajoelhar no chão e dizer:
— Ohhhhhhhhhh!
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