Nota:

Minha foto
Menino besta cheio de sonhos aprisonado no corpo de um homem sóbrio e cheio de desejos.

Escolha a dose.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Esperar

Ainda espero você chegar. Quem sabe seja um chegar e ficar? Quem sabe até seja um nunca ter partido. Seja um voltar a estar unidos, sem ruídos, sem doídos, como quem alveja lençóis e os põe ao sol, sem a menor vergonha, onde não há manchas dos passados a macular a relação onde tudo e a tudo foi perdoado.
Espero em vão? Sei não, ou não sei se não, sei lá nem sei. Sei que esperei e continuo aqui esperando tomar sua mão em minha mão e andar ao seu lado como se ao seu lado fora sempre o meu lugar.
E caminhar na praia.
Ver a espuma branca de ondas mornas e suaves escoando entre seus dedos dos pés, barra de vestido molhada em algodão transparente, colo de seios à mostra sem pudor e o pouco cabelo ao vento espalhando a luz dourada de um pôr-do-sol. Sem destino e sem caminho seria só um estar junto no rumo, sem questionar o pra onde muito menos o porquê. Por que? Por que o horizonte desse mar seria a fronteira mais tangente do possível alcançar ao seu lado. Em mim haveria força, risos, competência e talento, pois de você vem a inspiração. De você vem meu viver e meu porquê de ainda estar aqui.
E se você não vier, não voltar, não chegar, não serei mais eu aquele a esperar, serei um nada sem poder te beijar, te tocar e te abraçar. Serei onda sem mar, serei canto sem par, serei só e mesmo só, estarei só a te esperar.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Alô?

— Alô? É do céu?
— Diga meu filho.
— Eu queria fazer uma reclamação senhor.
— Entendo.
— É que essa vida não deu certo sabe? No começo até acreditei na propaganda que dizia que eu seria feliz e conseguiria tudo e coisa e tal, mas me enganaram aí. Meu Deus…
— Diga filho, estou ouvindo.
— Não, não, era só uma exclamação mesmo entende? Assim tipo: Meu Deus! Com ponto de exclamação escrito depois…
— Continua vai filho.
— O problema é esse mesmo, não dá pra continuar assim. Minha vida não dá sinal de vida, não completa as ligações sabe? Cai sempre que começa ou então, dá sempre sinal de ocupado. A agenda ta cheia, mas não falo com ninguém, ninguém me atende ou mesmo entende.
— É pré-paga? Você tem crédito?
— Que pré-paga nada. Tenho muito crédito olha ai no meu cadastro. Tou pagando uma conta muita alta senhor. Me cobram coisas que eu não deveria pagar por elas tenho certeza. Queria mesmo era, ao menos, mudar a operadora da minha vida pelo amor de Deus.
— Também te amo filho.
— Ama? Então resolve meu problema aê vai. Minha vida ta um inferno!
— Inferno filho? Muito bem então: No momento eu vou estar transferindo você para o ramal 666. Por favor queira aguardar.
— Alô, alô?
—Tututututututututu…

Deitado

Era antiga na garganta aquela contradição. Aquele sentar-se ao piano e não ser capaz de tocar uma nota sequer aparecera outra vez. A quase familiar falta de sabores, aromas e graças agora estavam mais freqüentes.
Naqueles momentos era como se o preto, ou o nada, fossem suas únicas opções.
Olhar os pincéis limpos, ímpios, distantes da tela imaculada era prova do seu silêncio de emoções. Era o nada e ele a se contemplar.
Não havia tinta na pena, cordas no bandolim e centenas de livros, páginas em branco, observavam o artista oco de si mesmo.
Poemas e canções, quadros e fotografias se espremiam no seu coração calado de inspiração.
— Meu bem? Você não vem deitar? — a voz ecoou num corredor imaginário.
Já havia tempo ele estava só naquele apartamento. Já fazia tempo havia se deitado e já havia tempo que ele não desejava levantar-se.

Graças ao tempo

Dê tempo ao tempo sim,
O tempo é o mais sábio dos fatores da vida.
Só o tempo educa, desvenda e comprova.
Só o tempo cura, desperta e reconcilia.
O tempo é o maior aliado da verdade.

Há o tempo de plantar e o tempo de colher.
De chorar e de sorrir, mas, mais que isso,
Há o tempo de esperar o tempo agir.
Ver o tempo passar é uma arte para poucos,
O saber apreciar o tempo é quase ciência.

O tempo nos mostra se estávamos certos
Ou por quanto tempo fomos enganados.
O tempo ensina a perceber a hora certa,
Ou revela se já é tarde demais.
O tempo renova uma esperança
Ou apaga um sonho.

O tempo pode não lhe dar quem você procura.
Mas vai lhe mostrar quem procura por você.
Pode não lhe dar o que você deseja ter
Mas vai lhe mostrar tudo que você perdeu.
Pois só o tempo separa o passado do futuro
E faz, todo dia, nascer um novo dia.
Um dia com 24 horas. 1440 minutos. 86400 segundos.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Avessos

Se me fiz de vitima fui executor,
Se ao ser servo fui senhor,
Se ao dizer sim eu quis o não,
Se por tão menos eu quis mais,
Se guardei a mágoa foi perdão,
É porque além do limite era capaz.

Foi em sorrisos que sofri.
Foi na solidão que me cerquei.
Foi sem despedida que parti.
Foi sim, perdido que encontrei.

Se ao me fazer claro fui sombrio,
Se ao libertar criei um muro,
Se ao dizer nunca, quis talvez,
Se ao pedir venha quis deixar,
Se não repetir fosse outra vez,
É porque o difícil era te amar.

Foi insensível que senti.
Foi em letras que apaguei.
Foi em verdades que menti.
Foi afirmando que neguei.


Se ao menos eu não fosse avesso.



quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

À porta

Não vá.
Só tranque a porta às suas costas e sorria outra vez. Vai quase me bastar lhe ver sorrir. Toma outra taça e deita. Não diga nada se não quiser e se tiver algo a dizer que seja doce.
Vem volta, volta a ser quem você era, volta a me abraçar e me beijar e me tocar e me fazer feliz. Tira essas malas das mãos, você não tem que levar nada, a única coisa importante é o que você carrega dentro de você, não em malas. Por que partir? Você vai sair assim e me deixar de você só essa última lágrima? Não quero essa lembrança. Não quero esse pior pedacinho de você. Quero você de volta preenchendo todo o meu egoísmo de, assumidamente, ter você só pra mim. Quero sim.
Por favor, não se faça em tiras, em tripas, em nós. Faz de conta que foi um sonho mal que passou que a dor passou que a angustia passou, que o silêncio passou. Faz de conta. Faz alguma coisa, mas faz nem que seja de conta. Só não posso é acreditar que foi você quem passou por mim como se aqui, eu nunca tivesse estado.
Fuma vai, eu deixo.Eu deixo tudo, deixo você beber, fumar, molhar o banheiro, não arrumar nada nunca mais, deixo trocar o canal da TV, engordar até morrer, deixo você se esquecer, deixo sair com sua turma, escolher a vaga pra estacionar, deixo você roncar, deixo não elogiar, deixo até me maltratar. Mas não posso deixar você me deixar.
Uma última taça então? Uma última dança? Um último beijo? Um último minuto? Segundo?
Não vá.


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Respeito

   O som da realidade, que mantivera até então em silêncio, soou como um canhão do Forte do Paço de Arcos ao perceber-se tão estúpido.
   Sob os fogos das campanhas, entres os desvios das lâminas e as cargas eqüestres, ele sentara-se à luz do archote e deixara sua verve levar-se por sonhos líricos enquanto a lembrança do rosto da amada, a lhe sorrir promessas, o invadia em noites insones.
   Arrebatado pela paixão não se esquecera dela um instante. Fora tão intensa sua entrega que depois de lidas as ordens do Rei para que fosse ao campo de batalha, o poeta de poucas terras e bois, firmara no Cartório de Oeiras, o documento passando todas as suas posses para o nome da jovem campesina que amava tanto. Aquela seria a prova do seu amor, e a jura de escrever-lhe todos os dias, a promessa de sua volta.
   Fora um erro não ter abandonado a pena quando tomara a espada deixando para trás Lisboa, a poesia e a moça. Antes o tivesse feito ao revés de escrever-lhe, todos os dias, tantos poemas e cartas de amor, como quem tenta agarrar-se à vida imitando o murmúrio dos soldados moribundos nas precárias enfermarias naquele século XIX.
   Aquele brilho de olhar oferecido, despachado ao fidalgo, pela moça do campo, anos antes num encontro casual, o seduzira como quem oferece a jacá de milho à besta faminta. Nos seus encontros semanais à porta da catedral, ela alimentara suas esperanças com gestos e sorrisos calculados à ábaco. Fora uma paixão instantânea que apagara toda a estória de vida passada. Agora ele sabia que também lhe apagara a sanidade.
   Que perda de tempo irreparável fora aquela? Que esperdício lamentável de versos e prosas num lastimável escrever à toa. Aquelas cartas, que se estenderam por quase toda a Guerra Peninsular, agora lhe doíam no peito mais que todos os ferimentos de batalha.
   Mais que isso, doía-lhe o silêncio guardado agora perdido num estrondo bélico.
   Por todo aquele tempo ele aguardara, todas as manhãs, o retorno do Correio Real. Todos os dias ouvira dos carteiros emplumados a resposta do vazio indicando-lhe resposta alguma às cartas remetidas. Cada vez que ele escutava um não em algum lugar do seu peito se apagara uma canção.
   Aconselhado pelo capelão ele escreveu então ao bispo. O que se passara à moça? Ainda ia às missas domingueiras? Recebera ela suas cartas?
   Aos sete dias contados de espera torturante veio-lhe a missiva:
   -- Esquece a vil ordinária meu pobre poeta, pois a cuja vendeu de pronto tudo que conquistastes. Segue ela agora à Paris ajuntada a um raso das tropas de Napoleão enquanto sonha com riquezas. Em breve estará novamente a fazer varejo de seus predicados à espera de trocar sorrisos por posses. – e seguia a carta.
   A verdade abriu-lhe todas as feridas. A imagem que cultivara da moça ruíra antes mesmo de suas lágrimas terem lavado o selo do bispo no lacre vermelho.
   O que ele buscara nela não encontraria mais. Buscara o amor de verdade o que na verdade, não se deve buscar.
   Na última imagem avistada do poeta ele saltava as trincheiras, florete em riste, correndo e bradando versos inúteis na direção do inimigo numa última carga suicida.
   O amor pode morrer na verdade, mas até o respeito morre na mentira.




quinta-feira, 26 de novembro de 2009

100 sentidos

Dá-se às mulheres o privilégio de se sentirem e de se permitirem sentir coisas quaisquer. Sentirem-se bem, mal, sem. Sim sentirem-se “sem”. Sem alguém, sem ninguém, sem porquês, sentirem esses tipos de sems.
Sentir arrepios em chios, pensamentos sombrios, mulheres se sentem a si. Hoje belas amanhãs nem tanto, mudam os sentires como se os tirassem do guarda-roupas. A alma feminina é toda sentir, das cólicas aos grandes amores, das culpas aos temores, mesmo até, sentirem raros humores.
Acintosamente confundem o pensar e o sentir e no fundo mesmo, não os sabem distinguir.Fazem-se assim sentir sem distinção, sentem até sem razão e o chamam de intuição. Será ilusão? Deus! Mulheres sentem a alma, de que falava, calma, lavada, vazia, renovada. Plenas, sós, a fêmea faz a garganta em nós. Sente vontades de explodir, de fugir, de partir, de ir e chama a tudo isso de sentir e ao se sentir assim se sentem sim.
Contraria a física a mulher, que capaz, se sente magra? Que sem perceber sua presença sente-se ausente? Poderosa? Há a mulher que se sente só. Sente dó o que a faz madura, se sente insegura, se sente mal e ao final, há a que diga sim – Estou me sentindo meio assim.
Que bom poder sentar-me aqui nessa varanda e apenas observar seus sentires.
A nós, homens de tantos fardos imaginários, forças fingidas e profundos pensares, caberá apenas perceber que há, em cada uma de vocês, um sentir ímpar, rogando pelo dia em que ao menos um sentimento deixe de ser privilégio de vocês, o de sentir-se amando.
-- Entendo hoje que o amor é pra se sentir e não para se entender.


Feridas

As vezes é preciso uma decepção, para aprendermos que a vida não é feita apenas de alegria, e sim de tentativas.
A grande glória não reside no fato de nunca cair, mas sim no levantar sempre depois de cada queda.

Perto

Para estar junto não é preciso estar perto, e sim do lado de dentro.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Finalmente

E se tomaram à varanda, braços dados, ombros colados e no caminho de pétalas ela pisaria distraída como se nada daquele clima a pudesse fazer corar. O corte perfeito do vestido se estenderia até o seu mais longo imaginar, e dela, emanava o cheiro de quem cheira a promessas encabulando as flores e até o próprio cheiro do mar. Cabelos perfeitos, unhas bem feitas, pele lisa e maquiagem absolutamente impecável. Mas nada na sua beleza seria mais importante que sua presença.
Ondas cismavam a romper as notas da orquestra, enquanto perto às velas da mesa, tremeluziam vaga-lumes ensaiados a replicar o ritmo da canção.
Dançaram imediatamente, o vinho que os esperasse. O futuro poderia ficar pra depois, as dúvidas também, e que bem-vindos seriam os sonhos, o simples desejar de que ela fosse nada ou nada tivesse a dizer, e ele, não fosse ninguém. Sem passado, sem nada passado, sem terem passado nada até aquela noite sob aquele céu estrelado naquela varanda.
Giravam e giravam ao som da música e uma nova música ambos escreveriam.
Após jantar, dançar, deitar e acordar sem ter dormido, uma carruagem de promessas os levaria adiante. Renascer, reviver, redescobrir que nunca haviam vivido, apenas existido. A partir dali jamais seriam os mesmos. Seriam plenos, perfeitos, harmônicos.
Cresceriam juntos e juntos ficariam.
-Toma essa chave. Ela abre teu futuro e destranca o meu.


Dei-me a traduzir sem perceber

O simples pensamento em você,
e eu me esqueço de fazer
as coisinhas mais comuns
que todo mundo tem que fazer.

Estou vivendo numa espécie de sonho acordado.
Estou feliz como um rei
e por mais tolo que possa parecer,
para mim isso é tudo.

A simples idéia de você,
o desejo aqui por você,
você nunca saberá como os momentos passam lentamente
até que eu esteja perto de você.

Vejo seu rosto em cada flor
seus olhos nas estrelas lá no alto.
É simplesemente o pensamento em você,
o simples pensamento em você, meu amor.





The Very Thought Of You. Me mata sempre. Me fala sempre e sem pensar dei-me a traduzir sem querer.

Sobre Vinho

"Enólogo é o cara que diante do vinho toma decisões, e Enófilo é aquele que, diante das decisões toma vinho" (de Luiz Groff).

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

À mão

Foi pensando ainda em ir que ele parou o seu mundo sem saber para onde queria mesmo continuar caminhando.
Foi no silêncio do não poder se abrir que caíram sobre seus ombros todas as dúvidas.
Nunca orara suplicando cargas mais leves, e sim ombros mais fortes; mas o peso do momento quase o sufocara. E refletia e refletia ao passo que a vida, a dele e de outros, se esvaía.
Fizera amigos, tivera amores e já havia escrito uma história. Morrer não; seria demais acabar assim. Assim só. Assim, só acabar. Como quem se acaba só. Seria um só se acabar. Em si.
Seria preciso tenacidade, perspicácia e gentileza, pois fora na candura que pautara sua vida. Jamais fazer a dor, jamais se justapor, e ao não impor se submeter. Quereria outra vez o bem já impossível.
Sua alma então se fez em silêncio esperando o alarde ao aguardo, relegando aos anjos toda a responsabilidade do seu porvir.
Nada sabia da alma humana, deixando isso aos anjos.
Eles que se tomem de preocupações com tantas almas.
A ele, restaria o dedilhar das letras do viver em cordas de linhas pobres.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

À porta

Ela ainda se enrolava nua sob os lençóis, como fazia todas as manhãs fitando a porta. Estúpida expectativa de que ela, a porta, voltaria a se abrir. Trancada em si, ela própria sim, continuaria nua enrolada sob lençóis, como fazia todas as manhãs, tardes e noites, fitando a si mesma.
Precisava de um porquê como precisava de ar.
Sabia por que as paredes desbotavam, por que móveis se empoeiravam, por que não haveria mais perfume, música ou paladar. Sabia bem o porquê de chover torós quando a lembrança dele lhe vinha aos olhos. Sabia do frio, do silêncio, do vazio.
Janelas fechadas para que nem um raio de sol lhe fizesse a promessa de um novo dia, tomava o sofrer por companhia mesmo ciente que essa dor não a aqueceria, nada diria e a nada, poderia preencher.
Neste escuro oco fitava a porta e a si mesma. Sem porquê, sem reposta, afogava seu futuro no oceano da saudade.
Saudade não de perceber que estavam separados, e sim por saber que um dia estiveram juntos.
Nada é eterno, tudo irá durar apenas o tempo necessário para se tornar inesquecível.



Alfabetizando

Que se aprenda então o "A" de amar, o "B" de beijar, o "C" de carinho, o "D" de desejo, o "E" de entender, o "F" de fé, o "G" de gozar, o "H" de hoje e no fim desse começo, que se aprenda o "I" de impossível.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Liberdade

Há a inveja dos pássaros sempre sim.
À eles tudo parece mais fácil: Bicar, comer, cantar e pôr, e também, em especial, o tal voar; ai Deus, o invejável voar. Quem nunca o quis? Quem nunca olhou pássaros na mais tenra idade, cheio de inveja, e quis voar? Um voar misto de fugir, de poder ir, de chegar a lugar nenhum sendo todos os lugares apenas um pouso.
Voar como os pássaros; um puro desejo impossível. Apenas plausível e sonhável, e emocionalmente reconfortante nos momentos de dor.
Dor pela dor de saber, que não é como se desejou, pela dor de não ter, em si, a plenitude sonhada, pela dor de nunca ter sentido os planos secretos realizados, por se fazer aceitar, por se fazer tão cotidiano e fugaz, por se negar ao chão pisado e conhecido, por não ter feito alguém feliz, por querer voar; sumir, partir, se justificar. O querer liberdade.
Querer voar não é solução. O buscar sem coragem não resolve nada.
Não se alcança a liberdade buscando a liberdade.
Busque a verdade. A verdade liberta.
A liberdade não é um fim, mas uma conseqüência.
Pare de querer voar.



Razão

O ruim não é morrer ao fim da vida, e sim viver morto.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Segurança

Bom saber que há algo só nosso e de mais ninguém.
Bom saber que há segredos que nunca confiamos à outra pessoa.
Bom saber que nesse momento sou só eu.
Há coisas que não se deve fazer, há coisas que ninguém pode saber, há coisas que não deveriam ter sido feitas ou até mesmo ditas.
Se não quer que saibam não as faça. Ao menos, não as conte.

Se amar em si

Passara sim todos aqueles anos lembrando o primeiro aperto de mão.
Por trás da mão estendida, havia um rápido sorriso, daquela total desconhecida, que invadira seus olhos sem pedir licença. Apenas um sorriso num rosto sem história, sem passado, sem perfil, mas, era o sorriso que, sem saber, esperara toda a vida.
Tantas foram as suas paixões, amores até, tantos foram os dias com tantas em que vivera em paz, sem saber que havia sim, um sorriso como aquele no quase fim da sua própria estória.
E vieram os dias. Viera o conviver, o ver e o conhecer, até que daquele sorriso nascera o desejar. Um desejar de tudo. De dar as mãos, de estar perto, de contar segredos, de confiar, de rir das coisas bobas e de chorar ao ver um filme, de passear e ver o mar; de contar estrelas e fazer poemas, cantar canções, serem corações, de elogiar o cabelo, enrolar-se em lençóis, decorar nomes e redecorar casas; viria o desejar repartir, amparar, cuidar, conviver; viria o que alguém disse um dia ser amar. Vivia sem contar quantas vezes respirara, mas sabia quantas vezes ela lhe tirara o fôlego.
Mas durante todo o tempo amou só, sem reflexo. Amou sem ser amado.
Até que desistiu daquilo que mais amava por não conseguir mais se amar em si.
E a partir dali, talvez, voltaria a ser feliz.



São coisas diferentes

Há os que são, há os que pensam que são e os que deveriam ser.
Há o que existe, o que parece existir e o que deveria existir.
Há o que foi feito, o que parece ter sido feito e o que deveria ser feito.
Há o que acontece, o que parece acontecer e o que deveria ter acontecido.
Saber distinguir a diferença é tarefa árdua.
Aceitar tais diferenças é tarefa impossível.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Correr à Bia

Eram sim frios os Maios naquelas montanhas e mais frios eram ainda os olharem sentidos por todo o vale. Ter perdido os sapatos, molhado anáguas e desengranzado cabelos não era nada diante da tamanha aflição do correr.
Eram paços e tropeços, suspiros e frissons, apenas uma perna ante a outra num sincopado e demente caminhar às pressas. Corria, queria voar dali, não poderia, queria atingir a guarda e salva paz que não havia. Então corria.
Escaparia talvez. Iria até onde não haveria olhares, julgamentos, sentenças. Findaria na calma do apenas ser o queria ser e só ai então poderia sorrir novamente. Não mais haveria a realidade a lhe tomar os sonhos tomando-lhe em força os ombros fazendo-a estancar seu pensar.
Era só correr dali e pronto: Arco-Íris no horizonte.
A bagagem só um livro colado ao peito. Letras e letras e dizeres e falares aos quais amava sem preceitos. Só os amava ao passo que os ama só.
Eram um livro, um sonho e uma alma em desembestada correria sem se saber do que ou por que corria.
Mas ela sabia.
Corria de si mesma, e assim mal correndo sabia que jamais fugiria de si.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Bia

..então ela correu sélere , pés descalços ante aos ladrilhos frios, um livro à mão e no peito, uma esperança de chegar a qualquer lugar.

Defeitos

Saber amar é amar todos os defeitos antes de acolher as virtudes.

Um não

Cada vez que ele escutava um não em algum lugar do seu peito se apagava uma canção.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Cega

Aguardei em silêncio como caladas aguardam todas as verdadeiramente inocentes. Como se, sem ter a culpa, contássemos com a benevolência ao menos de um talvez.
Mas não. Ele parecia brincar outra vez com as minhas verdades. Faria caras de doído, de você não deveria ter dito aquilo, caras de doeu em mim enquanto sim, em mim, a dor era real e não a fingida como era a dele. Parecia o mesmo truque ordinário e já contumaz, onde me colocar na parede era a prática, o veto, a censura, o fique quieta porque você está errada.
No seu estalar de dedos eu estaria de volta. E ele faria outra vez e outra vez faria, e eu, por mais uma nova vez, diria sim. Diria sim ao que tenho e penso estar construindo, cravando as unhas numa realidade que só eu construí e da qual não me permito mudanças.
E ele sumiria e voltaria para me possuir num sorriso, num dos seus gestos, calculados ou não, que reconheço na raiz, mas contra os quais não tenho nãos.
Então eu olharia suas mãos, sua boca, seu jeito de falar. Me faria em paixão pelo que ele deveria ser, pelo que construí nele pra mim.
Cega ao que ele realmente é, eu o redesenho assim sem nada que não pode e não deve fazer parte de mim.
—Deixe meus olhos como estão, dói menos assim.


Super-herói

E até que estava indo bem. Criara um novo personagem capaz de, quem sabe, matar o que era antes. O novo saberia voar, balas não o machucariam, sua visão veria outras coisas diferentes das coisas que não queria ver mais, teria superpoderes. Não sentiria a dor e saberia sorrir.
A cidade inteira sentiu-se feliz com a mudança. Agora todos estariam seguros, pois ele estaria por ali para protegê-los.
Enfrentar os inimigos ficara fácil. Sentia-se orgulhoso com a nova personagem e sua alegria era contagiante. Tornara-se o que deveria ser.
Mas ainda não era o que queria ser.
Quando tirava a fantasia diante do espelho, para ele mesmo, sua verdadeira identidade não era mais secreta.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Saber andar

Só se aprende a escalar uma montanha depois de tropeçar na primeira pedra.

Ambição

Haverá sempre aquele que tem, aquele que não tem e o que se satisfaz com o que tem. Fico com aqueles que querem mais.

Chuva

Não há chuva que lave o sal da alma,
não há alma que se lave em lágrimas,
não há lágrimas que se escondam na chuva.
Haverá sempre sal nas lágrimas, e em toda chuva, haverá saudade.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Inútil

Nos nossos sonhos mais íntimos somos todos órfãos. Não há colo nem guarida.
É apenas esse remoer silencioso do pensar formulando frases sobre você mesmo, sobre desejos e ambições sem a complacência do interlocutor. É você e sua própria alma nua, despida de qualquer compaixão. Um só. Só em seus pensamentos. Por vezes uma terra fértil, alegre, feliz, cheia de esperança que supre suas carências, mas, por mil vezes ao revés, tudo não passa de dores em ondas a se repetir num cáis real, sólido e impassível.
O pensar em como teria sido, o pensar em como gostaríamos que fosse, o pensar em como chegamos ao que somos sem termos sido o que queríamos ser. E vem em ondas. A espuma inconclusiva se espraia lhe tirando o ar, sem resposta, sem realidade possível e pior, sem ninguém a lhe ouvir pensar tudo isso.
Louvemos então os tolos, os fúteis, os superficiais, que nada pensam só agem. Sem medir, sem análise, sem senão ou talvez, eles fazem o sem pensar e assim, se fazem.
Mania estúpida de pensar e refletir antes de fazer; ao final, virá o tempo a lhe consumir por não ter feito, por não ter dito e não ter sido. Por ter perdido o próprio tempo a pensar.
-Será que ele pensa em mim?
Pronto. Mais um pensamento inútil e sem fim.


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Dizer Não.



Sei que não o faz por mal.
Sei sim que não quer me magoar, ou talvez até não o faça com essa intenção.
Mas também sei que o faz ciente do fazer, finge não poder querer e por assim ser, o deve fazer.
Cada palavra, ponto ou parágrafo não escrito pra mim.
Cada hora, minuto ou segundo do seu silêncio frio.
Cada sim não dito, cada ausência e cada vazio.
Cada olhar, tocar e respirar seu, onde não me encontro eu.
Como quando tantas vezes em minhas noites, insone, me vejo a procurar seu rosto nas memórias de uma imagem do dia, tatuado nos escuros do quarto, talvez me fitando distante com o seu mais cínico e intangível olhar, análogo ao olhar de quem tem olhos apenas para um estranho.
Sei dessas noites, eu bem sei. E ao me perguntar mil vezes por que, mil vezes eu mesmo me disse não sei. Não sei por que você insiste em viver em mim assim.
E assim, me enfio em vontades de lhe fazer ameaças infundadas, ciente que jamais irei cumpri-las, promessas de nunca mais tentar ser percebido por você, me jurando querer crer que não anseio mais você. Nem você nem seus poucos beijos e abraços arrancados à sua misericórdia. Condeno-me a uma distância preceituada e salutar, me prometendo garantir a consciência e o equilíbrio emocional e não mais me deixar sonhar. Afinal se você mesma não se permite sonhar por que razão aceitaria os meus sonhos?
Sem o não querer, sem o não desejar, eu viveria a paz qualquer de uma relação banal sem porvir e nunca mais seria o que sou, passando a ser só um ser, sem ser o meu ser em si.
E passaria a viver menos sem o querer, até não querer viver mais.
Sem rasgar condutas e pré-conceitos, sem penetrar sua indiferença resoluta talvez fingida.
Restaria-me esse seu dissimular, que só me entristece, quando foge à palavra dita na cara, sem vergonha, sem medo, sem guarida, posto tudo que eu só queria, era ouvir ao menos um sim.
E observando ao longe vejo você se entregar aos que não a amam de verdade, sem um gemido, provo o gosto amargo de ser rejeitado na sua convivência, excluído dos seus carinhos e ausente do seu amor.
Sei que não serão meus os seus filhos e não será seu o meu teto.
Sei que não será meu o peito do seu conforto e segurança.
Sei que não haverá o momento da partilha do orçamento.
Sem ser um casal, viveremos apartados. Você resolvida e eu conformado.
Sem meus olhos sobre você a velar seu sono eternamente amargurado.
Restaria-me a migalha imunda de um amor banido, a sobra da sua consideração jogada na sarjeta por outros amores, que me exilam e que nem ao menos sei quem são. Eles ficam com o melhor do seu mundo. Eu fico com o resto, o sobejo, o excesso, sobras de você que ninguém quer ou necessita e onde sacio meu amor em silêncio.
Deus! Mendigo por tão pouco. Se meu corpo tosco não lhe atrai toque ao menos minha alma.
Pois sempre estive aqui perto da sua vida, o primeiro a chegar e o último a sair, todos os dias desde que te conheci, aguardando passivo a minha vez na fila dos importantes pra você. Um momento que não chega nunca. Solidário, amigo, prestativo, servil, seu cúmplice a trair meu amor próprio e meu próprio amor.
A cada fim de dia a certeza de não ter obtido nem a sua dúvida, não por dívida, entardece em mim.
E você some junto com todas as palavras, emoções e gestos que não pude te dar. Sem nem adeus.
Anoiteço. A alegria diurna da expectativa vai-se transformando em dor, um sofrimento rotineiro ao qual você não se acostuma nunca e passa a implorar por um fim, qualquer fim. Uma palavra final que assassine esse amor em mim por crueldade ou o mate em eutanásia por compaixão. Mas que faça parar essa dor.
Cumprirei a dura pena da ausência de suas carnes e jamais te terei profana, puta, mundana.
E digo assim de forma insana porque não faz parte de ti o que não possa querer.
Eu desejo também o seu corpo sim e eu, eu sim o faço por mal. O meu mal.
Pratico essa tortura em vão, última lágrima da razão, derramada pelo direito de sentir tesão.
E sem ter o seu amor, o seu sim, vejo o que restou da vinha vida e estou a um passo de me dizer não.

Dizer Sim.



Sei que o faz por bem.
Sei sim que quer minha alegria e o faz só com essa intenção.
E também sei que o faz ciente do fazer, ao dizer querer e por assim ser, o deve fazer.
Cada palavra, ponto ou parágrafo que escreve pra mim.
Cada hora, minuto ou segundo que escuto sua voz.
Cada sim dito, sua presença, sua existência.
Cada olhar, tocar e respirar seu, onde me encontro eu.
Como quando tantas vezes em minhas noites, propositadamente insones, vejo seu rosto lindo nas memórias de uma imagem do dia, tatuado nos escuros do quarto, me fitando tão próxima com o seu mais doce e verdadeiro olhar, análogo ao olhar de quem tem olhos apenas para a pessoa amada.
Sei dessas noites, eu bem sei. E ao me perguntar mil vezes por que, mil vezes eu mesmo me disse sim eu sei. Sei sim por que você vive em mim assim.
E assim, me enfio em vontades de lhe fazer promessas, ansioso por poder cumpri-las, promessas de sempre perceber você, de querer cada dia amar mais você. Você e seus muitos beijos e abraços onde encontro um céu tão seu. Coloco-me então mais perto de você, me prometendo perder a consciência e o equilíbrio emocional e me deixar sonhar muito mais. Afinal, se sou eu que estou nos seus sonhos por que eu mesmo não me permito aceitar você nos sonhos meus?
Com tanto querer, com tamanho desejar, eu vivo a loucura qualquer dessa relação deliciosa cheia de porvir e só assim para sempre poderei ser mais do que sou, um ser melhor, por ter seu ser em mim.
E passaria a viver mais com o seu querer, até querer viver muito mais.
Rasgando condutas e pré-conceitos, a penetrar sua existência resoluta e tão sincera.
Abraçaria esse seu se entregar, que só me enche de alegria, quando me fala a palavra dita na cara, sem vergonha, sem medo, sem guarida, posto tudo que eu só quero é lhe dizer sim.
E observando de perto vejo você se entregar a mim um amor de verdade. Em júbilo, provo o doce sabor de ser aceito na sua convivência, inserido em seus carinhos e presente no seu amor.
Serão meus os seus filhos e será seu o meu teto.
Será meu o peito do seu conforto e segurança.
E haverá o momento da partilha do orçamento.
Sendo um casal, viveremos juntos. Você decidida e eu realizado.
Com meus olhos sobre você a velar seu sono eternamente apaixonado.
Abraçaria o banquete desse amor assumido, toda a nossa paixão exibida diante de todos sem exceção. E eu teria o melhor do seu mundo. Cada pedacinho lindo de você, detalhes que só eu sei e que tantos desejariam e morreriam de inveja ao saber.
Deus! Eu quero mais sim. Se teu corpo me atrai imagine tua alma.
Estarei sempre aqui perto da sua vida, o primeiro a chegar e o último a sair, todos os dias que me restam da vida ao seu lado, sabendo que sou o primeiro na fila dos importantes pra você. Um momento eterno. Cúmplice, amigo, parceiro, feliz e cheio de amor próprio inspirado pelo seu próprio amor.
A cada fim de dia a certeza de ter obtido a sua certeza, não por dívida, entardece feliz em mim.
E vem você a mim com todas as palavras, emoções e gestos sem pensar em dizer adeus.
Quando finalmente anoitecemos, a espera diurna na expectativa transforma-se em pura alegria, um sentimento inédito a cada dia quando o coração saltita infantil lambuzando-se na sua imagem viva e escuto sua palavra renovar a certeza em mim renascendo cheio de paixão. Você diz: Te amo.
Cumpro então o rito sagrado do prazer e tomo sua carne reconstruida pura, casta, angelical.
E digo assim de forma natural, porque tudo que quero faz parte de ti.
Eu desejo sempre o seu corpo sim e eu, eu sim o faço pelo bem. O meu bem.
Pratico essa delícia que é amar você, celebração pura da paixão, derramada em puro tesão.
E tendo o seu amor e sendo assim, agradeço pelo resto da vida em mim e decido me dizer sim.

Falar dos outros.

Não convide ausentes para sentar à nossa mesa. Fale mal de mim ou de você. Ausentes presentes azedam até o melhor vinho e amargam a doce companhia.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Memória amarga.

Recostado ao balcão da varanda e olhos perdidos no horizonte de luzes aos seus pés ele mordeu os lábios mais uma vez. Na noite quente, a fria solidão era sua maior inimiga. A solidão fazia-o pensar quando pensar era tudo que ele não deveria fazer.
Ultimamente ele andara mesmo a lembrar velhas bobagens amareladas pelo tempo e nesses vazios da alma, copo à mão e cigarro nos lábios, voltava-lhe a mesma dor passada, que repassada mais uma vez, faria doer tão agudo quando da primeira vez.
Indiferente ao seu penar a memória o traía. O longo e fino cabelo sobre o rosto já se grudava às lágrimas enquanto o corpo nu tremia sem porque.
Subir-lhe-ia então à boca o sabor do vinho velho e azedado que mataria sua sede estúpida. Releria cartas mentalmente, ecoariam palavras ao telefone, reviveria imagens turvas de cenas que nunca presenciara.
Com o mundo nas mãos, ele açoitaria ao vento a ânsia do seu presente desejando nunca ter tido passado e não se permitiria vontade alguma de viver qualquer futuro.
Há coisas que a gente nunca esquece e ao mesmo tempo nunca deve lembrar.
—Algum dia voltarei a ser feliz e então, estarei vazio de você.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Amar uma estrela.

Sentia-se afortunado por ter um pouco daquela luz.
Por tempos a seguiu distantemente, amarrado à um silencioso e frágil laço, na esperança que um dia aquela estrela pudesse cair, e ele, tomando-a em suas mãos, seria importante pra ela. E ela, estrela, seria só dele.
Acenou, fez fogueiras, acendeu mil lanternas pra chamar sua atenção. Incendiou um quarteirão, fez farol, clarão, mas, findas as noites, ela se recolhia distante e intocável. Sem ao menos dizer não.
Seu pulsar irrestrito o acalentava. Ela brilhava para todos indistintamente e por se sentir mais um suportava não possuí-la.
Numa noite por nada, descobriu que a estrelinha freava sempre sua órbita sobre uma cabana à beira de um lago e cintilava intensamente. Sentado à serra, ele passou a esperar todas as noites, eternizadas no ciúmes, a ver o astro parado sobre uma cabana que não era a sua.
Numa madrugada fria foi a cabana que não a quis mais ali pairando e fechou suas janelas. De longe, ele viu quando a estrela quase se apagou. Apaixonado, ele recolheu seus últimos raios refletidos nas águas e os guardou no peito. A dor do ser amado é mais forte que a dor de amar sem ser amado. Ele nunca saberá se foi o seu amor que lhe devolveu a luz, e, foi refeita em luz que ele a devolveu ao céu.
Hoje ela já brilha mais forte. E ele que a seguia, mesmo nos momentos mais opacos de sua trajetória celeste, pode agora inundar-se em sua luz na certeza de que, mesmo ao seu modo, essa estrela lhe segue também.
(e.)


Sem pai nem mãe.

Somos todos órfãos de alguém. Mas só eu, me sinto órfão de mim mesmo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

De ferro.

Ele só ouvia seu próprio coração quando o detetor de metais do aeroporto disparava.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Sapeca.

Saltitando, sem sentir, segue seqüenciada sua saga solta.
Sente sua sedução saciar sedes. Salva sonhos selecionados sobrescrevendo sentenças sutis, sabe-se saboreia seu sucesso sem sacrifício sem sequer saciar-se. Serena, sagaz, sensível, sara sandices sensatamente só sorrindo. Se solta, sobrevive, sorri, segue sempre. Saca sonhos sensíveis, sinônimos singulares sem sínteses, sem soberbas. Sutilmente. Sinal sobrenatural.
Sóbrio, sigo-lhe sorrateiro, soslaio silencioso, sincero, sigo sem sagacidade, só simples seguir sem segredo.
Sinto-me seqüestrado, sem ser sovina sou suave.
Seja sim.
Sempre.
(e.)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

De mudança.

Encontrei a mala na porta e meus sonhos dependurados na maçaneta.
No preguinho na porta uma plaquinha alertava “Feliz Natal”. Já era Fevereiro.
Além daquela porta tudo continuaria Dezembro.
Abri com receio a tranca como quem abre o quarto dos pais à noite. Olhei aquela sala vazia, ali só restava uma cicatriz.
No papel de parede, manchas de nossos retratos, antes dependurados, faziam-se de fantasmas impressos em silhuetas pálidas.
Havia no chão um catálogo telefônico, listas e listas de pessoas que nunca vimos e que nunca iríamos conhecer juntos. Um documento mudo de um passado que jamais acontecera.
Nenhuma carta. Velhas folhas de papel em branco, amareladas pelo inútil descansar em gavetas, ainda aguardavam, espalhadas em silêncio, pela tinta que nunca viria.
Um telefone inútil expunha fios em entranhas desligadas.
Não havia móveis.
Uma única meia branca pastava no carpete marcado pelos vai e vens , mas era só uma, não um par, como se par nunca houvéramos sido.
No canto do quarto,oco de emoções, as paredes se encontraram num reto sussurrar.
— Olha ele ai de volta. — cochicharam.
Não havia volta, havia ida apenas.
Ela havia mudado de mim.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Confiar.

Mais lindo do que tudo que cerca essa palavra é que se pode percebê-la num único gesto. E gestos são lindos sempre.
Você não se questiona se é verdade ou não, você apenas toma nas mãos o fato e o aceita plenamente. Há uma entrega cega, sempre agradável e doce, sempre um ato de fé que dispensa o raciocínio. É a plenitude da amizade o confiar, é um requisito do amar o confiar. O não precisar de porquês, de senões, de talvezes quando há certeza, tranqüilidade e há sossego, desapercebidamente ganham força em mais um gesto. É quando você, e o confiante em você, crescem, multiplicando a confiança.
A confiança que temos em nós mesmos, reflete-se em grande parte, na confiança que temos nos outros, ela é cura.Não letro sobre ser um homem de confiança ou até, digno dela, ou dar confiança,  dar a senha, ou  a auto confiança, fé. Falo do confiar no outro, falo da mão sempre dada, falo da não necessidade de nem olhar, tocar de ouvido, olhos fechados, cumplicidade, certeza. Ai, só tem uma palavra: Confiar.
Falo de quando, ao mar bravio, deixar o leme na mão do outro e ir apenas olhar o mar, pondo os olhos no horizonte de ambos e não baixar as vistas ao lastro no barco.
Falo do não me importa se posso cair se você me diz vem. Falo do não preciso nem falar isso porque você já o sabe. Do nem pergunte, do não tem por que.
Da confiança frutifica o amar, a presença do voto de confiança une. A falta dela corrói tudo.
— Toma minha mão, vem, só há cores lindas no horizonte. Confie.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Um cheiro assim.

Não posso olhá-lo, encarar mal consigo, não nos olhos. Não corresponder magoa-o, sei que sim, e não o quero magoar. Já me magoei demais e sei o gosto que tem a mágoa. Mas gosto da sensação de estar perto, que me incomoda, mas faz bem. Gosto de participar da sua vida e nisso me sentir correspondida, de saber o que se passa, de sentir onde se anda e onde se vai chegar mesmo não querendo perguntar como ele passa, onde ele anda e aonde ele quer chegar. Falo e falo como se de nada mais pudesse falar, como quem tenta calar o que não quer ouvir. Antecipo seu tocar em mim, me esquivo, evito, suspiro, o admiro e me admiro de mim mesma ao me ver esquivar. Mas devo sim. Tudo seria muito bom se não fosse assim.
Duas vezes por ano nos abraçamos em parabéns pra você. Aquele abraço era o lado bom da vida, mas para valorizá-lo eu precisava viver. E que irônico: pra viver eu precisava perdê- lo.
Queria que esses abraços não tivessem fim, pois sem fim, fica o cheiro dele em mim.
(e.)

Esquecer.

Só o esquecimento legitima a entrada do novo. Esquecer é o bem da alma doida.

Feliz assim.

Não tem nada legal na TV, ta chovendo e não vai rolar parquinho, sinto cheiro de fígado fritando na cozinha, éca, não quero almoçar, sou o mais baixinho da minha sala, esse quarto deveria ser azul, alguém pegou meu chocolate, meu robô está sem bateria, detesto a vizinha estudando piano, minha bola rasgou de tão velhinha, não posso pular na cama, queria ver Papai Noel, amanhã tem aula de matemática, meu nariz ta escorrendo, já sei todas as fases desse Vídeo Game, tenho medo do escuro, não gosto mais de skate, eu sempre caio, não sei comer com garfo, esse remédio é horrível, minha mãe não me deixa comer Chips, o Marquinho tem os melhores carrinhos, perdi minhas figurinhas do álbum...
Ele, deitado na cama, perdia-se em pensamentos tristes.
A porta se abriu. Ela entrou saltitando em seu melhor vestidinho de crochê.
— Eu vim aqui só pra te dar um beijo. — disse a menina sorrindo.
O mundinho dele então transbordou-se de alegria.
(e.)


Ciúmes.

Ao ciúme tudo serve de alimento e nada serve de remédio, nele há mais amor próprio que amor.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Vida de bailarina.

Ali era o real. O físico, o químico e o emocional existiam. Calos, varizes e luxados, torções e machucados, se mesclavam às dúvidas, anseios e incertezas, e a um suplicante rosário de vazios no peito, todos sem chãos, sem nós e sem amores.
Era a coxia. Ali ainda era o mundo mal e real onde aguardava entrar em cena.
Até que veio a luz.
Lançou-se ao ar em salto preciso, salto calculado, estudado e praticado como quem usa um bisturi aos olhos da platéia. Mal tocou o chão de tábuas, lançou-se ao ar novamente em fuga de fôlego e num rodopio ímpar, espalhou sua graça pelo teatro. Sorria a bailarina. Só a música a possuía neste outro mundo fugaz completamente entregue.
Quanta graça, quanto encanto. Só sonhos e um feliz bailar. Ali não havia espaço para a dor de viver. Ela era pura dança. Espetacular.
E a platéia ergueu-se em aplausos entusiásticos, em hurras e vivas a sua arte.
Uma reverência, um ramalhete jogado aos pés e já estava a cortina a se fechar outra vez.
Por trás do pano pesado, o fim dos refletores.
Torções e machucados, de volta aos bastidores.
Guardarei em mim os passos da bailarina e pra sempre serei ungüento para suas dores na coxia.


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

In vino.

Seria um papo e um vinho. Uma ou duas taças talvez, talvez banal, trivial, frívolo até.
Não o foi.
No momento em que ela entrou na varanda do pequeno bistrô e seus saltos tocaram o assoalho, polido com esmero, o mundo parou. Um sonho em mulher caminhava por entres as mesas, congeladas no tempo, onde sabores foram acentuados, aromas se perpetuaram e todas as contas a pagar foram suspensas. As pequenas luzes, dependuradas nas árvores, faiscavam de alegria e excitação. Velas brancas às mesas exibiam suas chamas retas e perfiladas, não ousando tremular bruxuleantemente sobre seu rosto impecavelmente maquiado. Guardanapos de linho de curvaram em reverência. Todos os sorrisos permaneceriam tatuados para sempre nas faces dos demais clientes.
Quando a viu sentar-se à sua frente, como uma infante ao trono de tanta candura e poder, ele sentiu uma brisa leve de tocar-lhe o rosto refrescantemente. Ela o olhava nos olhos em silêncio e o silêncio dela confessou-lhe sim, que sabia de todos os seus segredos.
O bom tinto já a aguardava servido. Mas foi a taça à frente dele que ela tomou nas mãos. Bebeu um último gole que lá restava e então sumiu por encanto.
E a partir daquele dia, os lábios dela surgiriam marcados em todas as taças em que ele bebesse, como se impressas estivessem todas as palavras ainda não ditas.
e.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Amar um homem.

Nem me faço de Maria para poder amar então.
Homens se amam até, sem sentir tocar a mão.
É amor de amigo, é amor de irmão.
É fácil assim amar João.

Sete pecados.

Pecou da pele aos ossos sem o mínimo sentimento de culpa.
Foi mesmo sem perceber que passou a desejá-lo com tanta gula. Ela não havia escolhido sentir tanta inveja de qualquer outra que se aproximasse e tomava-se de ira , quando imaginava a possibilidade de vê-lo entregue a braços que não eram os dela. Tinha orgulho de amá-lo. Entregava-se a ele deliciando-se na luxúria merecida até deixar-se tomar pela preguiça. Ela o queria só para ela, com tamanha avareza, que percebeu que amar assim era pecar sete vezes. Mas foi ai que ele deixou de amá-la.


Vê-la passar.

Ela passava como passava todos os dias úteis e vê-la passar era a coisa mais útil à sua alma naqueles dias.
Vender flores na mais movimentada esquina da cidade era negócio de bom lucro. Mas ele lucrava muito mais, só em vê-la passar. Naqueles momentos ele só ouvia seus passos e todo o resto; vozes, trânsito e todos os sons urbanos, eram apenas silêncio em seus ouvidos. Só havia o toc-toc dos saltos, só havia ela passando.
Ele sonhava que todas as flores que vendia seriam enviadas para ela. Que todo aquele perfume da esquina na verdade emanava do corpo dela. E que todos os olhares que recebia eram olhares dela.
De onde ela vinha ou pra onde ela ia jamais saberia. Ela apenas passava. Ele vendia flores e sorria quando ela passava entre ele e o sol. Era assim que sua sombra o acariciava por inteiro.

Juntos.

Eles sempre se sentavam no mesmo banco da mesma praça. Ele a abraçava sobre os ombros enquanto ela tomava sua outra mão ao colo. Por vezes eram só silêncio e lembranças, outros instantes, eram só estórias e risos de momentos vividos. Bem vividos. Haveria sempre uma nova ruga e alguma nova veia saltando nas mãos, haveria aquele desalinhado no vestir, haveria a caspa e o mesmo perfume, tão íntimo e familiar, quanto as próprias dentaduras. Ele faria anotações numa agenda de compromissos imaginários. Ela veria novamente as mesmas fotografias.
E eram na verdade os pombos que os observavam.
As lentes turvas dos óculos refletiam claramente a história daquele amor metamorfoseado pela vida. O dia em que se conheceram, a música que os emocionava, o primeiro beijo, a paixão, a união, filhos e netos.
Eles ainda se amavam e amavam ainda estarem juntos aqui.
E tudo que mais queriam era poder um dia ter o direto de partirem juntos.


Doente de amor.

Amar é curar sem entender a doença.

Efeitos colaterais.

Quem me mandou voltar a ser feliz?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Pra quando ela casar.

Sentada à nuvem de promessas chega ela toda em noiva. Sem pomba, apenas ao som da flauta de um fausto que melodia o quando ela foi sempre simples. E por sempre ter vivido nessa premissa, agora teria a certeza que não mais viveria assim, simplesmente.
Ao descer e pisar o chão, um último tropeço assinalou a lembrança do passado trôpego e a certeza que aquele seria o último lapso no seu viver.
Sobre o tapete de pequenas flores brancas, como que carregadas por pequenos insetos tremulando vivas aos seus pés, ela pisa pairando num rastro singular de estrelas salpicadas ao chão. Ela caminha até o altar e seu sorriso a possui descaradamente, inundando de júbilo a catedral prateada. A cada passo uma tristeza esquecida, a cada instante uma promessa cumprida. Vestida na branca alegria de cauda longa onde cabem todos os amigos, ostenta um véu de vitórias, uma coroa de sonhos a serem sonhados por dois. Nas mãos, um ramo de trigo e centeio adornado em laços na longa fita reluzente e de leve pêssego ao tom, trás a prova do alimento que irá prover tal união. Uma flor de figo simboliza que haverá frutos. Confortáveis e elegantes saltos a fazem caminhar com independência e determinação.
Em terno costurado na verdade e no compromisso, lhe aguarda de pé o futuro de felicidade. Ele lhe toma a mão e a faz arrepiar de prazer como já fossem núpcias consumadas. Seu homem, seu eu, seu nós. Sim, ela dirá sim, nunca mais diria não, é o amor puro que a propunha em união, é o cúmplice protetor que a convida a desfrutar um néctar jamais provado, estava ali o fim da desordem, o cessar da dor, a porta do viver bem.
E ela diz sim.
Todo o universo sorriu naquele momento, todas as canções foram ouvidas, todas as lágrimas enxutas, todos os poemas foram lidos e todos os pecados foram perdoados.
E ele disse assim:
—Quero sempre me casar com você.
e.



segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Porto.

Enquanto você se atraca em mim eu naufrago.

À sua sombra.

Gosto quando você passa entre eu e o sol. Assim sua sombra me acaricia por inteiro.

Voar.

A casa caiu, o coração partiu e o mundo se abriu esgoelado pronto para engolir-la. Não havia chão nem estrada, a fraca chama de luz se apagara e nada mais conseguiria ver à frente. Dali em diante seria apenas um caminhar lento, de tropeços e pés arrastando-se no viver. Apenas um andar adiante e necessário. O olhar sobre os ombros revendo seu passado e o fitar o chão, agora tão freqüente em sua vida, lhe cobriam com um manto de chumbo. Andaria sim porque necessário o era. Andaria pela mesma rua a reconstruir a casa, colar pedaços do coração e se fechar para o mundo.
No caminho, o mesmo despercebível mendigo, sentado na mesma esquina, que sempre a olhara de longe todos os dias, estendeu-lhe a mão, uma palma esquálida e menos afortunada ainda.
Havia algo, na mão daquele homem tão despercebível, havia algo, no olhar daquele homem tão despercebível, havia algo naquele homem, algo que ela nunca havia percebido e não compreendia :  por que ele sorria?
Ao invés de uma moeda ela apenas lhe retribuiu o sorriso. Ao invés de afastar-se ela tomou sua mão.
Foi nessa hora que lhes nasceram as asas e juntos, eles voaram dali.
(e.)


sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Chamar a atenção.

Às vezes você chora e ninguém vê as suas lágrimas…
Às vezes você se entristece e ninguém percebe o seu abatimento…
Às vezes você sorri e ninguém repara na beleza do seu sorriso…
Agora solta um pum pra você ver...

Luz no fim do túnel.

Existe sim a luz no fim do túnel o problema é que as vezes o túnel parece longo demais.

Como se fosse mágica.

Escolha uma carta. Qualquer uma. Embaralhe tudo e torne a embaralhar outra vez. Agora feche os olhos, abra o baralho num leque preciso e retire a carta. Foi essa a carta que você escolheu? Não? Graças a Deus. Que tédio seria ter um baralho nas mãos, 52 diferentes opções de cartas e você tirar sempre a mesma.
O viver eloqüente está na novidade, no diferente, no novo e no desconhecido. A prestidigitação dos dias é uma total perda de tempo. Não me encanta saber o futuro, que se afastem de mim todas as previsões, não quero saber se serei feliz ou não. Não me alimento na perfeição das minhas fantasia e não me admito chorar pelo leite ainda nem derramado. Que venha o futuro como vier e me tome como mágica. Que seja o bem ou o mal, mas que seja intenso e surpreendente novo.
Se bem que se um mágico tirar um elefante da cartola vai ter sempre um canalha pra falar: Porra! Não era pra ser um coelho? Fico com a mágica do viver.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Tenho pressa.

Pra que a pressa? Tenho todo o tempo do mundo e um mundo num segundo se conta a cada minuto. Cresço olhando sobre meus ombros, vendo o que se passou, não foi nada comparado o que ainda passará. Levam-se anos para construir e segundos para destruir. Vão-me passar dezenas de vidas como passam as águas de um rio que nunca mais voltarão, pois não importa o que tenho, mas sim, a quem tenho. Qual o tamanho dos meus sonhos? Quão grande é minha ousadia? Onde quero chegar? Ouso contar meus sonhos em confiança, acordo, não durmo, abraço a calma imperfeita e mesmo que tardio, mesmo assim, sorrio. Desamarro a alma, respiro, me alimentará a calma e a esperança, e vou pisar sem desconfiança as tábuas da ponte do que há de vir. Vivo sem pressa porque o ontem já se foi e o amanhã talvez, nunca virá. Sonho de novo como se fosse viver para sempre e vivo, como se fosse morrer amanhã.


Pelas Borboletas.

Nascida lagarta, frágil e faminta, gastou metade da curta vida em vão pra enfim vir a ser o que é. Vive então pelo mundo num inconcebível esforço de viver, sempre a se esquivar de bicadas precisas e ventos cruéis, nessa vidinha de migrar interminável a que se propõe, apenas em busca da parceria certa. O mínimo frio lhe paralisa as asas, que horas servem de aviso inútil “Não me coma.”, horas lhe permite o induzido desaparecer camuflado e breve repouso.
Para se alimentar precisa sorver o néctar mais profundo das flores, para beber se expõe em águas rasas e quase tudo à sua volta parece conspirar para que padeça.
Imagine tentar caminhar feliz enquanto lhe arremessam centenas de bolas de boliche. Para ela, seria apenas mais uma chuva.
Mesmo assim ela voa e é linda ao voar.
No fundo, somos todos borboletas.
e.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Poeira no vento.

Havia sim aquela lembrança muda, perdida num recanto qualquer, folheada de sorrisos e momentos de prazer sem culpa. Calada em confissões, toques e sons, tatuagens em mim revistas no espelho do banheiro como manchetes dos meus próprios dias passados. Banho e sabão, sabão, sabão. Está provado que a vida que se viveu não se lava da memória.
Espano a poeira que vem com o vento. Que venham os novos dias, que me inundem de novas promessas, que me tomem pela mão e me mostrem nova luz.
Ficará sim a sensação, de que em algum lugar da vida me esqueci de compor uma canção.






terça-feira, 22 de setembro de 2009

Subir a ladeira.

Ficara tudo lá, pra trás, apenas fechei a porta e saí. Dentro estava escuro, frio, úmido, tão triste que nada se refletiria no espelho. Todo esse tempo ouvira a memória arrasando qualquer sorriso, a lembrança cravando a marteladas momentos irreversíveis, planos falidos, corpo doido e o silêncio.
Depois da chuva, o luar banha as pedras da rua vazia. A rua e afinal a lua, ainda estavam ali. A passos firmes, eu subo a ladeira que sempre desci, com sapatos novos que ainda me fazem doer os velhos calos. Vou andar por novas ruas e cruzar velhas praças onde antes passeara, vou descobrir novas passagens e avenidas repletas de futuros, vou caminhar até que não sinta mais meus pés e aí, vou ver nascer meu sol outra vez.
Beijar o adorável impossível era sempre um começo. Descobrir a insuportável farsa é que se transformou no fim.
Não me ligue nunca mais, nunca mais estarei naquele lugar.
(e.)


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Vi o amor na rua.

E se deram um ao outro em abraços apertados, beijos estalados, cachinhos em dedos enrolados e arrepios nos rostos tocados. Trocaram os conteúdos dos bolsos, se enroscaram alças de bolsas e até anéis se esfregaram quando, mãos nas mãos, seus dedos cruzaram.
Era sempre assim quando se encontravam. A cada vez, descaradamente anunciavam ao mundo seu mútuo amor. Amor risonho, infantil, iluminado, pueril, amor de nada bandido, amor de nada sofrido, um amor desentupido a escorrer pra quem quer ver.
Dois viados como se diz, não é preconceito é direito, o outro nome eu não quis. Adorei ver tanto amor e morri de inveja de tanta verdade.



Pontes.

E há quem tenha medo da travessia, medo do cair, medo de seguir adiante. Há quem prefira ficar onde está chorando aquele momento que vive sem conseguir dar mais um passo. Há os que olham para trás e não preferindo ter chegado até ali se arrependem da sua própria trajetória. Magoados, humilhados, sofridos, infelizes, dobram-se nos joelhos da auto-misericórdia e não caminham mais.
À nossa frente haverá sempre uma estrada a percorrer e atrás, caminhos ultrapassados a serem esquecidos. A cada momento uma nova travessia se apresenta. Adiante estará sempre o novo e ele não virá até você, você terá de ir até ele. Prosseguir é preciso sempre, pois lá na frente pode estar o bom por vir após o impreciso caminhar.
Seja nas vestes da esperança renovada, seja confiando nas lanternas do coração, seja no calor da mão de um amigo que te apóia, seja na certeza de que mereces o melhor, caminhe adiante.
Enfrentar mudanças é como atravessar pontes. Haverá sempre o outro lado a descobrir. E certamente um lado melhor.
(e.)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Parece fácil.

Olhar o mundo de cima, por sobre os ombros, de soslaio, com segurança. Sentir-se superior, brilhante, mais capaz, competente, mais forte e melhor é fácil pra quem não é pobre, gordo, feio, burro, ignorante e sem talento. Se a princípio a comparação é fria e pragmática demais, no fundo somos forçados a assumir na vida muitas injustiças como essa.
Mas anota aí viu? Feio se apaixona e gordo também goza.
Na verdade o mundo não é dos melhores. A história está repleta de belos e belas, primeiros e primeiras, maiores e melhores que tiveram seus quinze minutos de fama e sucesso instantâneo, vivendo apenas na primeira camada do viver e desapareceram no escuro.
Nem todo leão passa a vida eternamente na soberba porque o viver bem não é uma propriedade dos melhores, viver bem é sim, a virtude dos felizes.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Insônia

Mais uma vez ele a rondou por toda a noite. Era o mesmo deitar inquieto, velho companheiro, que lhe tomava as noites a encher a cabeça tola de idéias e planos, sonhos que não lhe deixavam dormir. E ela gostava disso. Era a hora produtiva do seu dia onde não se interrompia por nada.
Perto dela, como um anjo que pastoreia uma criança, sua imagem em saudades balançava de lado a lado o seu pensar rasteiro. E um misto de imagens lentas de momentos passados a atropelava sem pena numa avalanche de planos futuros, possíveis ou não.
Ultimamente, ele tinha compartilhado muito dessa sua hora. Olhos no teto. Olhos nos cantos. Há luz. Um pio, latido, estalo. Um Tic, um Tac.
Virava e rolava em silenciosos lençóis, cúmplices se contorcendo em dobras a escrever mais um capítulo. Vinha o rosto, os olhos, vinham as mãos, vinha cada pedacinho dele lhe assombrar prazerosamente e inteiro ou aos pedaços, era ele na sua mente a dizer que também sente, ali, assim tão presente. Ele não prometia nem mentia sempre, mas continuaria ausente.

É certo que hoje a noite, ele a encontrara novamente. E só sua pele vai estar ausente.
(e.)


Reencontrar.

Fui eu quem não deu adeus no cais. Fui eu quem se virou e tomou o caminho de pedras. Não acenei e não acendi uma vela, apenas voltei para a velha cabana onde me sentei com minhas memórias para tomar um café. Quase morro de frio. Voltei a praia e pedi pro vento soprar ela na minha direção. Um rumo certo, uma viagem segura, um mar de alegria. Assim, me faço de porto.