Nota:

Minha foto
Menino besta cheio de sonhos aprisonado no corpo de um homem sóbrio e cheio de desejos.

Escolha a dose.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Por sonhar

Nenhum coração deveria ser punido por perseguir seus sonhos. Querer o próprio bem não é egoismo, é amor próprio ou auto-preservação.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Cansei

   Para quem prefere as unhas ofereço o toque, troco a mordida belo beijo, o chorar pelo sorrir, o enfrentar pelo partir.
   Não me tragam novas batalhas, já me bastam as que tenho e travo comigo mesmo.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ou não

Um dia amara sim.
E assim queria amar.
Amar como quem ama o ar,
amar por necessitar,
não respirar, mas por amar.

Amara sim.
Amara assim.
Amara enfim.

Agora, sem amarras,
se vai em vão.
Pra onde iria?
Para onde vão?
Sem o amar o que são?

Há navios que fogem ao cais,
Há o que não revele sinais.
Há uma vida que não cabe mais.
Há que se saber quem são.
Se há a paz então,
Ou não,
jamais.

Pilar

   Há momentos em que a única solução, é partir em viagem que não termina, sabendo que pior que nunca chegar é nunca partir.
   Partir não por covardia, mas partir porque é melhor recomeçar do nada, que não ter sequer o nada para recomeçar. Pois nada justifica o som do pilão batido à toa, socado à suor, à calo, de pilar o vazio por hábito ou rotina, não o fazendo por querer, o fazendo pois é sina pilar, pilar e pilar. Pilar em oco e no pilão, se fazer em partes e, nas mãos se fazer em calos, até cessar. Então cesso e me calo. Recuso o pilar e parto.   
   Parto e partindo me parto repartindo as partes. Entrego um pedaço a cada um, e a cada pedaço, me entrego em partes um por um.
   Parto como quem vai voltar e encontrar na volta o vazio do nada que deixou para trás.

Infinitivo Pessoal

Já vesti tempestades,
dancei sorrisos,
engoli felicidades
e ergui abismos.

Provei ruídos,
bebi maldades,
troquei sentidos
e lavei saudades.

Cansei bondades,
chovi caminhos,
pintei vontades
e casei sozinho.

Já dormi silêncios,
feri magoados,
amei vestígios
e escrevi passados.

Por contradizer eu,

por contradizeres tu,

por contradizer ele,
por contradizermos nós,

por contradizerdes vós
,
por contradizerem eles,
é que me contradigo.

Pavê

   Findava o jantar. O casal e família, que nos recebera com a esperada cortesia suburbana no simpático apartamento financiado pelo BNH, prometia, de sobremesa, um pavê inesquecível. A conversa que antes gravitara entre programas de TV, preços de eletrodomésticos, escola das crianças e as más relações entre nossos colegas do banco, não sei bem por que, resultou no tema viagens de turismo. Ai veio a grande surpresa.
   –Ah, pera ai. – esclama o anfitrião – Antes do Pavê tem uma coisa que eu preparei pra mostrar a vocês: As fotos, em slides, da nossa lua de mel em Bariloche.
   Durante as horas seguintes, no anonimato da sala escura, ouviamos atentamente os comentários que se seguiam aos clicks do Carrousel Kodak:
   –Esse ai sou eu, a Ana e o casal lá de Blumenaú que a gente conheceu lá. Só não dá pra saber quem é quem por causa das toucas e dos óculos. Eu sou o de toca verde não é Ana? (Click) Ai foi na aula de ski, olha o tombo que eu levei! (Click) Aqui tomando chocolate quente,(Click) aqui no quarto do hotel, (Click) essa é com o pessoal no bar, (Click) aqui no segundo dia de aula, (Click) guerra de bola de neve, (Click) aqui, de toca verde é a Ana, a gente trocou nesse dia. (Click) No ônibus (Click), no bar do hotel outra vez com o Adhemar de pileque, (Click) última aula de ski. Foi nesse dia que eu desisti. (Click) Aqui entrando no teleférico pra subir o “Cerro Delas Nobias”. É Nobias ou Novias Ana?
   Não estando em Bariloche em meio à toda aquela neve e sim esquecido sobre a mesa de jantar, o esperado pavê derretia, mais feliz do eu. (Click).


sexta-feira, 28 de maio de 2010

Sopa de letrinhas

     Havia sopa à noite em minha casa de criança. Sopa de massa de sopa. Sabe aquelas de toucinho e carnes gordas? Com cheiro de sal e óleo no fogo, cor nenhuma e promessa de satisfação alguma? Aquele líquido quente arrasado em prato fundo e fluido, ralo, minguado, transparente na fluidez? Era assim que era.
      Submersos, pequenos círculos levemente amarelados de massa de macarrão.
     Meu pai, na cabeceira, que ria de si mesmo rindo-se da própria pobreza, ciente da existência de umas tais massas de sopa com o alfabeto completo, observava os círculos e cunhava:
– Enquanto não tem sopa de letrinha vão aprendendo o Ó. – E ria.
     Mãinha, autora do prodígio culinário notívago, ficava arrasada com meu desprazer em engolir o caldo. À superfície, coágulos de gordura, tal qual amebas gigantes, gravitavam num ato de se entrefundir e repelir esperando a deglutição. Era a pior imagem. E mãinha ainda falava entre um tapão e outro:
– Toma sua sopa menino isso é o suor de seu pai.

Saudade eletrônica

Saudade é uma secretária eletrônica que repete sempre o mesmo recado: Adeus, adeus, adeus. (Bip!)

Ser feliz

O amor não é para te fazer feliz, mais sim para você fazer alguém feliz.

Apenas mais um dia

Ando encontrando corações pelo chão.
Ando engolindo gritos de uma amor amiudado.
Caminho com um olhar cravado nas costas
Enquanto arquivo projetos de felicidade.

Passo noites em quartos chuvosos
Escondendo um resto de sorriso que ainda mora em mim.
Quanto mais fujo mais me encontro
Vivendo sussurrado, timidamente em preto e branco.

São manhãs de refazer-se em fases,
De mandar lágrimas de volta aos olhos,
Aquietar sabores amargos em malas medrosas
E guardar o adeus por mais um dia.



segunda-feira, 24 de maio de 2010

Queda

Acordou bem.
Cabelos lavou. Secou, penteou, cremes passou, maquiou. Vestiu-se como se noiva fosse, de charme e encanto sem igual. Sorriu, não estava mal. Bela estava por sinal. Dia bom pela frente, brilhante, reluzente, um encanto renascido, posto em belo vestido, calçada desconfortável, mas a alma, tão estável, prometia um dia assim, adorável. Tinha planos por direito, um futuro tão perfeito que nada do que sabia poderia estragar tão belo dia.
Coitada, mal sabia.
Não quis o vil destino, como num tango argentino, que o dia lhe fosse assim. Nem rosas e nem jasmim, viria o caminho malfadado, de um tango mal tocado, lhe abandonar sem recado, o protetor querubim.
Mal a porta da frente abriu e a tragédia começava, pois ao passar despercebida a alça da bolsa comprida na maçaneta enganchava.
Levou um tranco no braço, seguido de longo trompaço açoitando a carga fora.
Você imagine o tombo, que fez na testa um calombo crescido na mesma hora.
O sapato perdeu o salto, deu com boca no asfalto voando um dente postiço.
Que queda mal desejada, prova da sorte afastada ou sinal de um bom feitiço.
Espatifada na lama, mal saída então da cama, levantou-se em plena calma fingindo dignidade.
Não apagou sua chama e nem fez o menor drama, pra manter tranquila a alma e a sua sanidade.
Olhou o pé descalçado numa bosta de cachorro, o cós da saia rasgado e a boca sangrando em jorro.
Uma orelha sem brinco, um sutiã já sem alça, um olho de roxo tinto e rasgou-se a meia-calça.
Veio chuva de lavagem, caiu na hora certinha, derreteu a maquiagem e acabou com a chapinha.
De tudo de mal para ela, que não sabia o que vinha, foi ver que a olhar da janela estava a pior vizinha.
Uma mulher quando cai, sabe bem se levantar.
Não lhe interessa a dor nem fica a se lamentar.
Mas que seja bem discreto, que fique o ato secreto, que ninguém saiba sequer, que não se escute o relato ou que não aconteça o fato na frente de outra mulher.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Me importo

Pior é que tem dias que nem o foda-se ligado no último volume me faz esquecer que ainda me importo. É nessa hora que choro.

Tatuada

Ainda é seu nome o que tenho tatuado na pele e que não há sabão que apaque.

Coca-Cola

Quer saber? Não é mesmo essas “Coca-Colas” todas. É sim um mais ou menos, bacana, mas não passa disso. Se pintou com outras cores, é bem verdade, se fez como se fosse assim excepcional e até pra quem tem idade, pareceu especial. Se passou de pato a ganso, se mostrou ser sem ser, tentou, mas não fez valer. É quem é, e não quem pareceu ser. Uma hora ou outra iria transparecer, aparecer, iria ser, prova de fé, quem realmente é.
Acho que ela queria mais, merecia mais, deveria ter mais. Mas, ela, quem é?

É passado

Hoje morreu minha primeira namorada. Morreu longe de mim como vivi longe dela todo o resto dessa minha vida. Morreu sem despedida, sem que eu sequer lhe visse, a sua vida vivida. Morreu como vivemos, na distância, como se o que lembro e ainda vejo, o nosso primeiro beijo, não tivesse nenhuma importância.
Que peso tem em mim meu passado? Que mais pode acontecer?
Ando a viver os dias como se meu presente fosse um eterno nublado sem futuro a merecer.

Fim do dia

O teclado feito em inverno desmaia em mim o fim do dia.Cada tecla uma lápide de palavra não construída e de emoção não sentida.Fica só a certeza que acabou o dia.

Vem

Me dê sua dor, vem, me dê. Não posso ver você sofrer. Seja qualquer dor que seja, essa dor que te azuleja, dor de dente, de barriga, cólica, espasmo sem guarida, dê pra mim não sofra assim. Não permito, não, não quero não, não admito, nem que seja, a dor que você deseja, essa então não quero não.
Se você insiste em ser doída deixa minh'alma partida, perdida, sem razão. Como não sei viver sem porque peço hoje pra você: Me dê sua dor, vem, me dê.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Quenga

Me traga então suas coxas, estas, as mesmas coxas, marcadas pelas mãos de outros homens. Mostra sua boca amada em tantos outros momentos, exiba o corpo nu que ofertas à varejo com tantos sabores na prateleira, seja você, que faz seu dia de galha em galha, em degraus, qualquer degrau desde que o valha. Vem você que finge, e encena por mim, um amor sem fim, que faz soar rumores, de ter tantos senhores, que má, se mostra ferina, que me vem sempre ladina, vem e me tira a paz e me engane como sempre o faz. Vem, toma meu peito infantil, me toma em mais um ardil, que como hábito, canalha, não falha.
Vou estar aqui, vítima silenciosa, que sem uma idéia maldosa, se curva sem asco ao carrasco. Irei, me darei sem orgulho ou retidão, por nunca te dizer não, te vestir em vestes de altar, a me iludir e a te adornar, com flores e verdades de quem só as tem quem as tem, só para poder amar.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Nós

Por mais forte que seja a corda, nós se partem e laços se desfazem.

Minguar

Era uma lua tão linda que eu minguei.

Eus

Vivo dois. Vivo um para mim e um para os demais.
São dois eus, não um eu só sempre. Meu eu é um nós. Dois sempre. Dois eus, nós dois entende? Sendo assim a quem preferir? Meu eu só pra mim ou o eu para os outros? Será que um eu é melhor que o outro? E se eu fosse pra mim o que eu sou para os outros? Teria o mesmo efeito de ser para os outros o eu que sou só para mim mesmo? Estamos em dúvidas.
Acho que gosto mais do meu eu para você, mas, tenho certeza, adoraria conhecer o seu eu só seu. Se você me mostrar seu eu mostro meu eu pra você. Ai, talvez, seríamos só um eu cada um de nós. E só assim seríamos nós mesmos um para o outro.

Confissão

Certas coisas não confesso nem a Deus. Nem que ele me peça de joelhos. Na verdade, certas horas, nem mesmo eu ouviria a minha confissão.

Pra não dizer ao contrário

Adoro dias como esse de acordar tarde e poder sentar na varanda para o dejejum já posto. Pães, todos os pães, queijos, todos os queijos. E bolos e tortas e sucos os mais variados. Entre geléias e frutas, a fumaça do café colombiano se recorta no azul do céu, sobre a pequena vila na Toscana, tão azul quanto meus olhos o são. Da cama para a mesa. Não faço exercícios físicos apenas por não precisar deles, a natureza desregrada do meu viver mantém meu corpo torneado em sintonia com a pele naturalmente bronzeada.
Não leio jornais. Pela tinta e conteúdo fico com Camus, Saramago, James Joyce ou Proust.
Enquanto minha linda camareira sueca me despe para uma ducha na cascata de água mineral, escuto no estúdio, o quarteto de cordas estudando as últimas partituras que escrevi.
Hoje, prestigio os amigos Domenico e Stefano vestindo mais um dos seus presentes. Gabbana gosta de me agradar assim com seus terninhos simpáticos. Para calçar, pela manhã, prefiro Moschino, Cavalli, Alberto Guardiani ou até um simples Tommy.
Passando pelo átrio percebo o Gauguin ontem entregue pela Sotheby's. Acho que junto ao Rodin não ficou bom, não por estética, mas pela rima aparentemente forçada que desaprovo. Foi assim também com o Manet e o Monet.
Agora vamos ao árduo trabalho. Entre as alamedas de figueiras encontro a gentil Katherine, chefe das seguranças pessoais, que me sorri um bom dia de porcelana impecável, enquanto abre gentilmente a porta traseira de um dos Bugatti recém chegados à coleção. Pronto, começou o dia. No iPhone OS 4.0 recebo a chamada de Steve Jobs querendo minha opinião e algumas dicas. Atendo porque gosto desse rapaz, é esforçado e pode crescer muito se continuar me ouvindo. Pausa para uma taça. Bom, acho um certo absurdo uma Dom Perignon White Gold Jeroboam custar o que custa, mas, pena, é o que me anima pelas manhãs, assim, logo depois de algum serviço.
Em Ligações Recentes encontro uma listinha: Oprah... não, não vou. Tiger... não, cansei de golf. Barack. Bom, esse eu retorno mais tarde. Mais uma taça e vamos à Mensagens Recebidas. Penso: Realmente o dia está ficando um pouco agitado.
Clooney - “Vegas hoje? Brat vai gostar de rever a nossa turma.”
Beyonce - “Amor responde as minhas mensagens pleeeeease.”
Gates – “Por favor amigo, não dê mais idéias ao Steve.”
Luiz Inácio – “Vc acha mermo que não diviria ser a Dilma?”
Respiro profundamente enquanto apago os recados desimportantes.
Sabe de uma coisa? Iria ao almoço com George Lucas e Spielberg para tratar de uns roteiros meus, iria depois ao Louvre para a sessão de autógrafos, à tardinha Buckingham Palace para chá com a amiga e quem sabe, à noite, iria confessar a Gisele que está mesmo tudo acabado entre nós. Porém algo me ocorre:
– Helga, pare o carro por favor. Vamos voltar. Avise que vou sozinho caminhar na praia um pouco. Sâmia, por favor, leve-me mais algumas garrafas. E Brigitte, dispense o jatinho e diga ao Barack que falo com ele outro dia sim?
Acho que preciso aproveitar mais minha vida.
Talvez não trabalhe mais esse restinho de ano.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Por um trem

Era no mesmo vestido de anarruga que ela atravessava a praça todos dias à mesma hora. Luvinhas de renda branca, chapéu de palhinha e sapatos de fivela. Sorria e caminhava, como caminhava sorrindo sempre, todos os dias.
Ao chegar, subiria, cerimoniosamente, os degráus da frente como se fossem os de uma catedral, atravessaria o saguão vazio, ainda repleto de bancos longos de madeira polida e após a porta sempre aberta, alcançaria a plataforma. Ali ela esperaria. Ali não sorriria. Ali, ela olharia serena o horizonte remoto até onde a vista alcançava e os trilhos se encontravam.
O vento, vez por outra, faria bater as janelas despidas de vidros e lembranças, levantaria o pó acumulado ao passar dos tempos e removeria seus cabelos pretos e anelados, soltos aos ombros.
Nada a faria mudar a impávida expressão imersa em espectativa. Seriam dois olhos negros no horizonte, duas pintas no rosto e dois sapatos de fivela e dois trilhos vazios a se encontrar no mesmo horizonte.
Após horas de espera, ela retornaria no caminho regresso sob o olhar de toda a cidade.
Niguém nunca soube se ela esperava alguém chegar ou se esperava por um trem que a levasse dali. Havia anos que a grama cobrira parte dos velhos trilhos, havia anos que o enorme relógio estava parado, havia eras que ali, não mais passavam trens.
Aos fins de um Março qualquer, a mesma cidade esquecida às beiras da ferrovia, a viu passar no mesmo vestido de anarruga. Aos fins daquela tarde naquele Março qualquer, ela não retornou da estaçao, ninguém nunca mais a viu e nem mesmo o vento passou pelos velhos trilhos.

terça-feira, 16 de março de 2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

Se refaz

Refazer-se de um fracasso muitas vezes é mais fácil do que SE construir a partir do sucesso.

RAPIDINHO

Não mas olha, rapidinho te falo, não sei se são aquelas pernas, porque sabe ele tem umas pernas lindas mesmo e tem o jeito todo, sei lá, assim grandão meio forte mas não é fortão , sarado sabe, assim de academia? De academia não, não de academia não. Ele é sólido. Isso, parece sólido, uma coisa segura dura mas sem ser dura, acho que é sólido mesmo o que eu estou querendo falar. Mas parece macio se a pessoa apertar. Ele é assim meio bruto, mas não me entenda mal, é bruto na aparência só. Não é bruto tipo grosso, rude, é bruto meio que animal assim coisa de bicho. Entenda: Sabe aqueles cachorrões enormes que dá medo até? Daqueles sim, que se pegar a gente mata numa mordida? Pois é desse jeito, mas que a gente olha e morre de vontade de abraçar? Ele é assim mesmo. Tem mãozão, bração, pernão, assim todo ão. Sim, quase ia esquecendo, a voz, ai Deus a voz desse homem. Imagina aquelas vozes de homem que a pessoa fica assim pensando “Ave Maria que voz que esse homem tem”? Sabe? Tipo locutor de rádio? De, de... propaganda de banco tá me entendendo? Que se falar inglês você surta? Tou te falando é assim mesmo a dele. Nunquinha que eu me aguento falar no telefone com ele. Ai, chega suei agora, pega aqui na minha mão pra você ver. Mas olha, pior é que não é nem isso tudo que mexe comigo não, até porque homem tipo capa de revista gay eu nem curto, o lance é que ele é carinhoso. Não , não é bem carinhoso, até porque eu não sei mas acho que ele é carinhoso, ele é assim ó, deixa ver, ele é a-ten-ci-o-so. É, é atencioso a palavra. Ele olha de um jeito como quem se preocupa se a gente está bem ou não entende? Assim tipo vem com aquela voz toda e fala “Tudo bem?” mas é um tudo bem de quem quer mesmo saber se você está bem percebe? Ele olha dentro do olho, assim dentro da gente, todo grandão, roupa boa, cabelo arrumado, sapato correto, relógio correto, cinto correto, um puta de um bom gosto que mata. Aqui, escuta só, ai ele vem e fala: “Tudo bem?”. Porra, é “O cara” perguntando se você tá mesmo bem entende? Cê gela. Assim, quer dizer, eu mesma gelo, tipo, fico pensando assim: “Presta atenção que merda você vai falar mulher”. Não, é sério, ve só, porque se eu falo “Tou”, assim tou e pronto, vou ficar parecendo uma retardada né? E se eu falar “Olha na verdade eu tou meio mais ou menos e tal...” ai fica mais retardada ainda, pura monga, falando meu problemas todos sacou? E se eu parar pra pensar muito e ficar só ali, toda lesa, olhando pra ele e não falar nada é pior ainda.
Tem dias de festa que a gente se encontra e ele abraça, puta que o pariu, não, desculpa eu falar assim, mas é lasca mesmo. O cara abraça você toda. Fica você toda ali dentro do peito dele que dá até pra sentir o coração da gente saindo pela boca. Abraço que podia ser besta tipo abraço de cunhado entende? Mas não, é abraço mesmo de homem todo homem, assim, abraço de aeroporto ou de enterro, não sei se você tá me entendendo. E sabe o pior, ou o melhor se lá, é o perfume dele. Nossa é um cheiro assim, assim, assim de madeira, cheiro de canela, um cheiro de pessoa madura, equilibrada como se ele tivesse o mundo nas mãos e não ligasse pra isso sabe? Sei que não é só perfume porque quando mistura com o cheiro da pele muda né? Ou quando a pessoa tá bebendo ou fumando e mistura tudo sabe? Sei que eu fico depois cheirando meus braços e minha blusa ainda com o cheiro dele. É uma coisa viu? Vou te contar, que coisa isso de cheiro. A pessoa fica logo pensando bobagem. Mas olha, agora pega o cheiro, o bom gosto, a mão, a voz, pega até o “Tudo bem?”, pega tudo junto e poe numa cara de safado daqueles bem sem vergonha, é, do jeito que você tá pensando ai mesmo e me fala: Dá pra não querer?
Êita amiga, pera, ele entrou no msn aqui, depois te falo, agora vou falar com ele, se ele quiser né? Ai meu Deus ele tá digitando. Ele é lindo não é? Tchau amiga depois se fala, beijo. Ei, olha só, ai amiga sabe o que ele falou aqui? Eu sabia, ele escreveu assim: “Tudo bem?”

sexta-feira, 5 de março de 2010

Chover

Sendo vento, argumentei à chuva.
E soprei e soprei e soprei.
E a chuva não parou.
Quem para é o vento
ou para a chuva não há argumento?
Que chova então.
Também choverei em vão.