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Menino besta cheio de sonhos aprisonado no corpo de um homem sóbrio e cheio de desejos.

Escolha a dose.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Sopa de letrinhas

     Havia sopa à noite em minha casa de criança. Sopa de massa de sopa. Sabe aquelas de toucinho e carnes gordas? Com cheiro de sal e óleo no fogo, cor nenhuma e promessa de satisfação alguma? Aquele líquido quente arrasado em prato fundo e fluido, ralo, minguado, transparente na fluidez? Era assim que era.
      Submersos, pequenos círculos levemente amarelados de massa de macarrão.
     Meu pai, na cabeceira, que ria de si mesmo rindo-se da própria pobreza, ciente da existência de umas tais massas de sopa com o alfabeto completo, observava os círculos e cunhava:
– Enquanto não tem sopa de letrinha vão aprendendo o Ó. – E ria.
     Mãinha, autora do prodígio culinário notívago, ficava arrasada com meu desprazer em engolir o caldo. À superfície, coágulos de gordura, tal qual amebas gigantes, gravitavam num ato de se entrefundir e repelir esperando a deglutição. Era a pior imagem. E mãinha ainda falava entre um tapão e outro:
– Toma sua sopa menino isso é o suor de seu pai.

3 comentários:

MANU AO PÉ DA LETRA disse...

Perfeito!!!

Luluzinha disse...

Sopa de letrinha Adorei! fico a imaginar a sua cara olhando pra sopa..deve ter sido a mesma que o Lucas fez, qndo só de maldade usei a mesma frase: Toma logo Lucas, isso é o suor do seu Pai. rsrsrs

Muito boa., Adorei

Daninha disse...

Ahahah!

Eu amava sopa de letrinha. Aliás, amo sopa.

Bj