O teclado feito em inverno desmaia em mim sem sabedoria. Cada tecla é uma lápide de palavra não construída e de emoção não sentida. Desinspirado, fica a dúvida do que faria, fica a certeza que acabou o dia.
Nota:
- David Sento-Sé
- Menino besta cheio de sonhos aprisonado no corpo de um homem sóbrio e cheio de desejos.
Escolha a dose.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
sexta-feira, 18 de junho de 2010
E eu
– Oi, tudo bem? Como vai?
– Oi, na verdade não ando muito bem sabe? Os dias me têm sido amargos e tristes.
– Nossa menina nem me fale. E eu? Menina eu ando numa maré de azar sabe? Acordo mal, enjoada, cansada e sem graça pra nada entende? Não consigo dormir, meu intestino não funciona direito, sofro, sofro, sofro, mas não adianta. E pior, agora meu vizinho escuta música nas alturas o dia todo, imagina a dor de cabeça que me dá? Não tem analgésico que resolva. O maridão, já sabe né? Nem tá ai minha filha. Eu que não corra atrás de cuidar da casa, menino, cachorro, contas e contas pra pagar. Sabe outro dia? Passei duas horas na fila do banco pra tirar saldo.Já viu né? Trabaaaaalho feito uma desesperada e no fim do mês..Cadê? Não é fácil amiga. Olha, agora então me apareceram umas manchas na pele, parece coisa de gente velha não é? Mas não é não menina, é stress. Ave Maria amiga, se Deus tivesse piedade me dava uma ajudazinha. Nem na loteria eu tiro pra me fazer feliz. É sina ou praga de gente invejosa, é verdade. Mas conta menina, e as novidades?
– Novidades? Nenhuma. Tudo normal, normal. Sabe como é a vida não é amiga?
– Sei sim, beijos querida, te cuida viu?
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Olá
Não creio em pessoas que te abraçam, sorriem e dizem:
“Olá querido”. Desconfio do querido e não não dou créditos a “olás”. Fico com o velho “como vai você?”.
Direi honestamente, "vou bem, obrigado".
“Olá querido”. Desconfio do querido e não não dou créditos a “olás”. Fico com o velho “como vai você?”.
Direi honestamente, "vou bem, obrigado".
TV
Não comento e não reflito sobre cenas na TV. A TV nunca mostra as cenas reais que se vê, nem lhe oferece a dádiva da reflexão.
Por ter
Quando eu tiver um porque dormirei,
Quando eu tiver uma dor chorarei,
Quando eu tiver um amor amarei,
Quando eu tiver um plano sonharei.
Se eu tivesse chance dormiria.
Se eu tivesse lágrimas choraria.
Se eu tivesse amor saberia.
Se eu tivesse coragem sonharia.
Que eu tenha sono fácil.
Que eu tenha sorrisos plenos.
Que eu tenha ciência do amor.
Que eu tenha sonhos.
E que eu os sonhe.
Quando eu tiver uma dor chorarei,
Quando eu tiver um amor amarei,
Quando eu tiver um plano sonharei.
Se eu tivesse chance dormiria.
Se eu tivesse lágrimas choraria.
Se eu tivesse amor saberia.
Se eu tivesse coragem sonharia.
Que eu tenha sono fácil.
Que eu tenha sorrisos plenos.
Que eu tenha ciência do amor.
Que eu tenha sonhos.
E que eu os sonhe.
Amar sem pressa
Um dia acreditei
que sonhos, todos eles, se realizavam,
que crianças não morriam,
que o céu era realmente azul,
que haveria sempre um sorriso te esperando,
que ninguém se machucava ouvindo a verdade,
que com muita saudade os tempos voltavam,
que com muito desejo a gente ganhava um beijo,
que estando certo ninguém diria o contrário.
Acreditei
que teria crédito pelo que faço,
que teria amparo nas minhas dores,
que rezar adiantaria,
que coisas boas não se esquecem,
que gestos são importantes,
que fatos contam mais que versões,
que a confiança era sempre mútua,
que era bom ser honesto.
Acreditei sim
que a lua me ouvia,
que os bichos falavam,
que o mundo era pequeno,
que havia céu,
que o céu era bom,
que o bom era o bem,
que o bem era meu,
que meu bem era o céu.
Um dia acreditei porque o amor tinha pressa.
que sonhos, todos eles, se realizavam,
que crianças não morriam,
que o céu era realmente azul,
que haveria sempre um sorriso te esperando,
que ninguém se machucava ouvindo a verdade,
que com muita saudade os tempos voltavam,
que com muito desejo a gente ganhava um beijo,
que estando certo ninguém diria o contrário.
Acreditei
que teria crédito pelo que faço,
que teria amparo nas minhas dores,
que rezar adiantaria,
que coisas boas não se esquecem,
que gestos são importantes,
que fatos contam mais que versões,
que a confiança era sempre mútua,
que era bom ser honesto.
Acreditei sim
que a lua me ouvia,
que os bichos falavam,
que o mundo era pequeno,
que havia céu,
que o céu era bom,
que o bom era o bem,
que o bem era meu,
que meu bem era o céu.
Um dia acreditei porque o amor tinha pressa.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Lições
Seu Manuel era leiteiro. Isso mesmo: Leiteiro. Coisa do tempo em que leite era entregue nas portas, derramado de tonéis de alumínio nas jarras levadas por ávidos clientes no amanhecer suburbano. A cena era bucólica sim. Aos sons de Papa-capins, Tizius e Sabiás, parava à porta das casas um velho Ford, verde e preto, tipo perua, donde sairia um também velho senhor, cabelos brancos raspados à máquina número dois, cinto de couro roto atado por milagre à cintura, velhas botinas cansadas, camisa de quadros sertanejos e a exibir uma suspeita barba branca, sempre por fazer, como se aquele homem repousasse o queixo em farinha alva todas as manhãs.
Seu Manuel fedia. Fedia muito ao leite azedado e impregnado nas poucas vestes dia após dia. Enquanto moscas se açoitavam nos vidros da perua, na tentativa inglória de um repasto matinal, o diesel queimado, o leite e seu Manuel em si, agrediam a suave e gentil brisa de uma manhã pueril ao som de passarinhos. No fundo era repugnante. Mas, Seu Manuel sorriria e isso, além de apagar o incômodo, encheria o ar de alegria.
– Bom dia rapaziada da canela suja! – exclamava como se pela primeira vez o fizesse.
Nós, garotos simples e mal mimados, que sentados aos muros aguardávamos o leiteiro todas as manhãs, sorriamos de volta e em algazarra, o cercávamos de mimos como se ele fizesse chover Drops Ducora.
– Quantos litros quer a mamãe hoje? – perguntava – Foram bem nos testes de matemática? Menino andas a matar passarinhos de estilingue? Opa! Não lavas bem estas orelhas ó putinho? Tu ralhastes com tua irmã ainda ontem pimpolho?
Seu Manuel parecia adivinhar o nosso modesto cotidiano com uma precisão de quiromante. Como ele sabia de todas aquelas coisas? O velho português era um adivinho? Sorria e olhava nos olhos da gente, mais ainda, olhava dentro da gente. Seu Manuel sabia nossos segredos. Todos eles.
Só nós, garotos espertos, pré-amadurecidos na necessidade da sobrevivência, tínhamos a resposta: Seu Manuel fingia ser leiteiro, aquilo era um truque dele. Mesclado em todo aquele quadro desagradável de cheiros, moscas e estocadas nos nossos segredos, pois, até mesmo sabendo que de leite mesmo nenhum de nós gostava, ele disfarçava.
O segredo real era o nosso, todos nós sabíamos e não revelávamos: Seu Manuel era na verdade Papai-Noel, que se disfarçava de leiteiro para nos testar durante todo o ano na espera de uma melhor avaliação, para fazer justiça na decisão final a cada Dezembro: Receber ou não, o presente esperado.
Cínicos, sempre tratamos bem Seu Manuel. E sempre fomos bem avaliados, pois mesmo modestos, nunca nos faltaram presentes no Natal.
Cresci. Crescemos todos não? Não sei bem.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Correr atrás
A bolinha de papel voou sobre alguns alunos atingindo o alvo. Imediatamente Camila virou a cabeça, olhos em busca dos olhos da melhor amiga. Era sempre assim quando Malú precisava lhe falar urgentemente. Não dava para esperar o recreio.
– (Amiga, so-cor-ro, mes-tru-ei.) A leitura labial, precisa e bem praticada, completava a comunicação silenciosa entre as duas.
Soou a campanhia e ambas saíram em disparada. Era no banheiro das meninas, na hora do recreio, que a amizade entre as duas se solidificara.
– Você não está de Modess? Você é doida? Tá toda melada, olha que meleca!
– Não sabia que ia chegar, não tou acostumada ainda com isso. E agora? O que é que eu faço?
– Pera Malú que eu te ensino – A prática da Camila era surpreendente sempre. Dois dedos da mão direita, dois dedos da mão esquerda, papel higiênico bem enrroladinho e estava pronto o absorvente artesanal e providencial. – Esse tamanho tá bom?
Era sempre assim, a mais novinha recorrera por toda a adolescência aos préstimos da melhor amiga do mundo para tudo. Camila era o farol de Malú.
– Amiga ele me pediu um beijo na boca hoje. E eu vou dar. Mas como é que eu faço?
– Simples. – sempre prática – Você abre um pouco a boca, não muito e vira a cabeça pro lado. Ai beija.
– Lado direito ou esquerdo?
– Qualquer lado Malú, poxa vida!
– E se ele virar pro mesmo lado? Não vai bater o nariz?
– Ai você vira pro outro droga! E ai você poe a lingua na boca dele e ele poe a língua na sua boca.
– E eu faço o que com a língua dele dentro da minha boca?
Camila faria uma cara de séria.
– Ai Malú como você é devagar menina. Primeiro beija amiga, depois é só correr atrás dos seus sonhos.
Os anos passaram, as vidas caminharam e caminharam sem mais se encontrar, até o Orkut as reunir outra vez.
Camila do Amaral Pestana
aniversário: 18 de outubro
interesses no orkut: amigos, paquera, balada,
estado civil: Já casei e não gostei, SOU LIVREEEEEEEE!!!!
filhos: Dois do primeiro e um do segundo, é mole?
etnia: não entendi a pergunta
religião: loge de mim
fumo: sim
bebo: muito
quem sou eu: Sou quem sou e meu futuro é agora. Odeio planos. Não creio em fantasia nem perda de tempo.
Maria Lúcia (ou só Malú)
aniversário: 11 de março
interesses no orkut: contatos profissionais
estado civil: casada
filhos: Alexandro 12 anos, Matheus 13 anos e Camila 5 aninhos
etnia: minha alma não tem cor
religião: Somos católicos
fumo: não
bebo: nunca
quem sou eu: me acham assim... uma pessoa meio devagar, mas como uma amiga muito querida me recomendou, um dia vou correr atrás dos meus sonhos.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Mudanças
Quando é preciso mudar, o que importa não é a velocidade em que as coisas mudam e sim a direção que se quer tomar.
Só errando
É errando que se aprende
Que crescer não é ficar mais velho,
Que o calar as vezes é resposta,
Que trabalhar muito não é produzir muito,
Que só se ganha amizade oferecendo a sua,
Que o belo por vezes é o mal,
Que se aprende uma lição de cada vez,
Que há tempos tristes mas não vidas tristes,
Que na alegria, um dia vale uma vida inteira,
Que conhecimento não é sabedoria,
Que não se deve esperar por nada,
Que os tolos são mais felizes,
Que nos enganam mais aqueles a quem amamos,
Que o passado é para lembrar e não reviver,
Que não há experiência vivida que nos prepare para mais um dia,
Que amar não é se anular,
Que só quem nos pode dar lições é o tempo,
Que pessoas entram na nossa vida por acaso,
Que pessoas não permanecem em nossa vida por acaso,
Que o medo bloqueia a alegria,
Que se deve exigir mais de si e menos dos outros,
Que é você que escolhe suas cores,
Que apenas tentando acertar é que se erra,
Que antes mostrar ou falar é preciso ver e ouvir,
Que se deve ser feliz mesmo sem motivo,
Que um ano bom não vale um dia perfeito,
Que esquecer as vezes é uma necessidade,
Que se deve sempre topar andar em frente,
Que não se deve nunca parar diante de uma topada,
Que pode sim viajar às estrelas,
Que quem diz amar por toda vida está a viver sem amar,
Que não há aplausos quando a vida acaba,
Que dar carinho nos cura,
Que assim como a flecha, oportunidades não voltam,
Que somos livres em tudo,
E que Deus a nada proíbe.
Que crescer não é ficar mais velho,
Que o calar as vezes é resposta,
Que trabalhar muito não é produzir muito,
Que só se ganha amizade oferecendo a sua,
Que o belo por vezes é o mal,
Que se aprende uma lição de cada vez,
Que há tempos tristes mas não vidas tristes,
Que na alegria, um dia vale uma vida inteira,
Que conhecimento não é sabedoria,
Que não se deve esperar por nada,
Que os tolos são mais felizes,
Que nos enganam mais aqueles a quem amamos,
Que o passado é para lembrar e não reviver,
Que não há experiência vivida que nos prepare para mais um dia,
Que amar não é se anular,
Que só quem nos pode dar lições é o tempo,
Que pessoas entram na nossa vida por acaso,
Que pessoas não permanecem em nossa vida por acaso,
Que o medo bloqueia a alegria,
Que se deve exigir mais de si e menos dos outros,
Que é você que escolhe suas cores,
Que apenas tentando acertar é que se erra,
Que antes mostrar ou falar é preciso ver e ouvir,
Que se deve ser feliz mesmo sem motivo,
Que um ano bom não vale um dia perfeito,
Que esquecer as vezes é uma necessidade,
Que se deve sempre topar andar em frente,
Que não se deve nunca parar diante de uma topada,
Que pode sim viajar às estrelas,
Que quem diz amar por toda vida está a viver sem amar,
Que não há aplausos quando a vida acaba,
Que dar carinho nos cura,
Que assim como a flecha, oportunidades não voltam,
Que somos livres em tudo,
E que Deus a nada proíbe.
No infinitivo pessoal
Já vesti tempestades,
dancei sorrisos,
engoli felicidades
e ergui abismos.
Provei ruídos,
bebi maldades,
troquei sentidos
lavei saudades.
Cansei bondades,
chovi caminhos,
pintei vontades
casei sozinho.
Já dormi silêncios,
feri magoados,
amei vestígios
escrevi passados.
Por contradizer eu,
por contradizeres tu,
por contradizer ele,
por contradizermos nós,
por contradizerdes vós ,
por contradizerem eles,
é que me contradigo.
dancei sorrisos,
engoli felicidades
e ergui abismos.
Provei ruídos,
bebi maldades,
troquei sentidos
lavei saudades.
Cansei bondades,
chovi caminhos,
pintei vontades
casei sozinho.
Já dormi silêncios,
feri magoados,
amei vestígios
escrevi passados.
Por contradizer eu,
por contradizeres tu,
por contradizer ele,
por contradizermos nós,
por contradizerdes vós ,
por contradizerem eles,
é que me contradigo.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Pedaços de silêncio
Tinha dela o bom dia, o sorriso fácil, o gesto largo e o compartilhar de problemas cotidianos. Assim, ele se fazia parte dela e assim, tornava dela pequenos instantes do seu próprio viver. Era útil e necessário, no compromisso diário, de unir momentos no sabor eventual de viver uma vida só. Vida à dois saboreada em pedacinhos só deles dois.
Foi quando ele a disse que queria um pedaço maior de sua vida, ali ele estava sim, se dando por inteiro.
Mas ela não disse nada.
Como borboleta
Veja o amor assim como vê as borboletas.
Nunca corra atrás dele, e sim cultive seu jardim para que ele venha até você.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Por amor
Dizer “não”, dizer “você está errado”, dizer na lata “poderia ser melhor”, olhar nos olhos e falar “você pode melhorar”, é, no fundo, um ato de lealdade. Prova de amor.
Dias tortos
Há dias tortos. Há sim.
Mas há dias sem filas, de semáforos verdes, de chefes amigáveis, de boas manchetes, de ouvir música antiga, receber carta de primo, de comer pão quente e de piada nova. Há dias de não errar o caminho, de gente que não atrasa, de ganhar presente surpresa, de sinusite calma, de não ter sono de dia, de passarinho não cagar no vidro do carro, de não faltar luz, de achar uma coisa perdida, de lhe devolverem um empréstimo e de perdoarem sua dívida. Há dias de não dormir sobre o braço, de achar vaga no shopping, de não encontrar nenhum chato, de garçom atender bem, de achar dinheiro na rua, voltar namoro acabado, de polícia não dar a multa, de internet não dar pau, ser convidado pro almoço, dia de não ter ressaca e dia de não ter ciúmes. Há dias de pele boa, de sapato confortável, de receber aumento sem pedir e de pedir e receber, de ouvir um monte de sims, de certo, ou tá certo, de ouvir eu também acho, dias de ouvir até: Sim, você está certo, eu também acho.
Adoro esses dias. Mas que há dias tortos, há sim.
Analgésico
O seu abraço era um sonho tão perfumado, quanto são perfumadas as lembranças de uma infância feliz. Tomava assim, o seu abraço cheiroso, tendo ganas de fechar portas e janelas para que durasse mais.
Aumentava o aperto do braço sobre os ombros, colava o rosto um tanto mais, dava-lhe a cintura. Sentia as coxas de ambos trocarem segredos e promessas enquanto aqueles, alguns segundos de sonho abraçado, extendidos até o limite tolerável do socialmente aceito, aparentasse ser apenas um abraço. Mas não o era.
– Durma bem – ele diria.
– Você também – ela diria.
O sabor das quatro palavras ficaria escrito nas paredes.
Morreria em “ais”, enquanto caminhasse até sua casa, guardando mais o quanto ele a encantava, do que o quanto ele a maltratava com o silêncio.
Não seguiria reto. Não andava a lhe encantar a retidão. A dúvida, essa sim, andara a ser a sua nova companheira.
– Quando seremos? Como seremos? O que seremos? – pensaria.
E longe, seus olhos choveriam marés de saudade e desejo, mesmo sabendo que dentro dela, ele a doía um tanto assim. E doeria até uma próxima despedida, quando um novo abraço analgésico, enchesse seu coração de alegria.
Preste atenção
Preso no engarrafamento dei-me a observar a rua e seus habitantes. Gosto de me pegar fazendo coisas e me dar conta de que as estou fazendo, é quando meu fazer apura meu sentir. Assim, ciente do observar, construo conceitos sobre o que vejo:
O cara à frente deve ter um péssimo gosto tirando pelos adesivos colados no vidro do carro, o suado moreno gordo, bolso da camisa cheio de pedaços de papel e que tenta atravessar a rua é daqueles que está sempre atrasado, a estudante sequinha de braços fraquinhos para tantos livros, certamente sonha com o sucesso, um dia, ou ao menos, por um dia. Apavorada no caos urbano, uma talvez mãe, trás duas crianças pelas mãos, ela toda arrumadinha e cheirosa, ele, todo descabelado, boca lambuzada de doces. Ela a queridinha, ele o danado.
Casas, prédios e estabelecimentos comerciais também traduzem certas sensações:
Não há muito escrúpulo num dono de farmácia que oferta, em faixa de murim, anti-espasmódicos como necessários enquanto a placa, pensa e faltando letras, na porta da papelaria traduz a qualidade do material didático que vende. Os reclames fajutos pintados no muro da escola me fazem também pensar no que realmente eles ensinam ali dentro.
Interpretações, impressões, conclusões.
Há enganos também sabe? Olhando aquelas casinhas brancas, siamesas por economia, aquelas que os militares ocupam quando são transferidos para nossa cidade, sabe de quais estou falando, não é? Elas são assim... sem personalidade. Nenhuma cor, nenhum jardim, nenhum quadrinho de mal gosto nas varandas esquálidas. Não possuem sequer uma caixa de correio criativa ou até mesmo um vira-latas a latir no portão para lhes emprestar identidade. São casas iguais, de telhados iguais, de muros iguais. São casas tristes.
Mas desce então do coletivo barulhento um farto sargento do Batalhão de Infantaria de Selva, para quem de nada adianta a camuflagem recortada no muro branco de uma casa tão igual. Uma das casas tristes. Na calçada, mal contendo os sorrisos, uma farta esposa de um sargento do Batalhão de Infantaria de Selva, abre braços amplos antecedendo o caloroso abraço.
O engarrafamento não andava e a cena do casal, agora já se beijando em plena via, mostrava meu engano.
Más interpretações, más impressões, más conclusões.
É o olhar da gente que cria a imagem e não própria imagem em si. Não é possível enxergar adiante quando nos basta apenas o ver.
As vezes parecemos casinhas brancas, tristes e iguais. Mas certamente podemos abrigar um mundo colorido, alegre e único. É só prestar atenção.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
De cada um
Atrás de cada um a sempre outra pessoa e atrás de cada pessoa há sempre um sonho ou um interesse.
Fico com os que sonham.
Fico com os que sonham.
Futuro
Há pessoas que vão longe, outras, vão até a esquina, compram pão e voltam à sua mediocridade.
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